Versão injetável
Ozempic poderia custar R$ 17 por mês em versões genéricas, diz estudo
Semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, poderia ser produzida em escala por apenas US$ 3 mensais
Saúde | 07 de Março de 2026 as 09h 50min
Fonte: Época negócios

Um estudo indica que a semaglutida (princípio ativo dos medicamentos Ozempic e Wegovy), usada no tratamento de diabetes e obesidade, poderia ser fabricada por apenas US$ 3 (R$ 17) por mês na versão injetável. As informações são do The Guardian.
A versão em comprimido, uma formulação mais recente, teria custo de produção de aproximadamente US$ 16 (R$ 84) mensais. Os valores representam uma fração do preço atual: nos Estados Unidos, o medicamento custa cerca de R$ 1.000 por mês.
A pesquisa, publicada como pré-print, foi conduzida por pesquisadores de universidades do Reino Unido e da África do Sul e se baseia em registros de importação de insumos dos anos de 2024 e 2025. A metodologia já havia sido usada anteriormente para estimar, com precisão, os preços de genéricos para HIV, hepatite C e alguns medicamentos oncológicos.
Por que isso importa para o Brasil
O Brasil está entre os dez países onde patentes da semaglutida vencem ainda em 2026, com data prevista para 21 de março. Além de China, Índia, África do Sul, Turquia, México e Canadá, o país integra um grupo que poderá abrir caminho para a produção e comercialização de versões genéricas do medicamento.
Os pesquisadores também identificaram outros 150 países onde as patentes sequer foram registradas, incluindo a maior parte da África. No total, essas 160 nações concentram 69% dos casos globais de diabetes tipo 2 e 84% das pessoas que vivem com obesidade.
Andrew Hill, do departamento de farmacologia da Universidade de Liverpool e um dos autores do estudo, disse ao The Guardian que "esses preços baixos abrem a porta para o acesso mundial a um medicamento essencial".
Uma crise de saúde pública com solução cara
A semaglutida foi incluída na lista de medicamentos essenciais da Organização Mundial da Saúde em setembro de 2025 em reconhecimento da magnitude do problema que o composto ajuda a tratar. Mais de um bilhão de pessoas vivem com obesidade no mundo, e o número de diabéticos saltou de 200 milhões em 1990 para 830 milhões em 2022, com os maiores aumentos registrados justamente em países de baixa e média renda.
A obesidade está associada a uma série de condições graves, como doenças cardíacas, derrames e câncer. São atribuídas ao excesso de peso 3,7 milhões de mortes por ano no mundo.
Apesar da inclusão na lista da OMS, líderes de saúde global alertaram, na época, que os preços elevados seguiam como principal barreira ao acesso. No Reino Unido, o medicamento custa cerca de £120 mensais; nos EUA, US$ 200. As patentes nesses países e na Europa continental só vencem daqui a cinco anos.
Da HIV ao Ozempic: um modelo já testado
François Venter, professor da Universidade de Witwatersrand, em Johannesburgo, e coautor do estudo, destacou ao The Guardian que medicamentos para HIV, tuberculose, malária e hepatite já estão disponíveis em países de baixa e média renda por preços próximos ao custo de produção — salvando milhões de vidas enquanto ainda permitem que fabricantes de genéricos operem com margem suficiente para garantir oferta sustentável. Para ele, o mesmo modelo pode funcionar com a semaglutida.
A pesquisa segue levantamento realizado pela Médicos Sem Fronteiras em 2024, que havia apontado que medicamentos para diabetes, incluindo a semaglutida, poderiam ser fabricados e vendidos por valores significativamente menores.
Os próprios autores do estudo fazem ressalvas importantes: preços mais baixos não eliminariam os fatores estruturais que alimentam a obesidade, como insegurança alimentar, pobreza, urbanização acelerada e a expansão de ambientes alimentares ultraprocesados. Políticas coordenadas e planejamento de compras seriam necessários para transformar o potencial em resultado concreto.
Nomathemba Chandiwana, diretora científica da Fundação de Saúde Desmond Tutu, na África do Sul, e especialista em obesidade que não participou do estudo, explicou ao The Guardian que cerca de 27% dos adultos no mundo preencheriam os critérios para o uso de medicamentos como a semaglutida, e que a maioria vive em países onde o acesso é extremamente limitado. Para ela, a questão central agora é como os sistemas de saúde vão integrar esses medicamentos de forma responsável em estratégias mais amplas de combate à obesidade e ao diabetes.
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