'Subdiagnosticada e subtratada'
Endometriose: doença que atinge 8 milhões de brasileiras continua negligenciada
Maior investimento da história destina R$ 60 milhões a pesquisas nacionais sobre endometriose, dor pélvica e saúde menstrual; saiba mais sobre essa condição de saúde
Saúde | 18 de Junho de 2026 as 12h 51min
Fonte: Revista Galileu

Cerca de oito milhões de brasileiras vivem com endometriose, segundo o Ministério da Saúde. Ainda assim, a doença segue amplamente subdiagnosticada e subtratada no país. Caracterizada por sintomas como cólicas intensas, alterações intestinais e urinárias, ela leva, em média, sete anos para ser diagnosticada.
Diante desse grave cenário, o governo brasileiro irá investir R$ 60 milhões na pesquisa científica e no desenvolvimento de tecnologias em endometriose, saúde menstrual e dor pélvica. O investimento foi anunciado no último dia 9 de junho, na sede do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em Brasília (DF).
Uma quantia de R$ 50 milhões via Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) será dedicada para propostas selecionadas por chamada pública. Outros R$ 10 milhões serão doados pelo Instituto Alana para criar uma rede nacional estruturante de pesquisa, formada a partir de projetos selecionados pelo MCTI.
“Esse é um tema muito importante, que afeta pelo menos 8 milhões de mulheres no nosso país, especialmente adolescentes", destacou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante o anúncio. "É fundamental que ele tenha sido contemplado em um edital específico com esse volume de recursos.”
Já a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, afirmou que o investimento demonstra o compromisso governamental com a ciência como instrumento de cuidado, inclusão e promoção da qualidade de vida das brasileiras. “Quando uma menina falta à escola por causa da dor ou uma mulher leva anos para receber um diagnóstico, estamos diante de um problema de saúde pública que exige resposta do Estado", disse.
A primeira-dama do Brasil, Janja Lula da Silva, que também esteve no anúncio na sede do MCTI, chamou atenção ao revelar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desconhecia a endometriose até pouco antes do evento.
“Em meu almoço diário com Lula, comentei que precisávamos ser rápidos pois tinha o evento para o investimento na pesquisa contra a endometriose. Ele me perguntou o que era a doença”, contou Janja, segundo o site Poder360.
A declaração evidenciou a falta de conhecimento sobre a condição e reforçou a discussão sobre a invisibilidade histórica dos temas relacionados à saúde feminina. “Muitas mulheres convivem com dores intensas sem receber diagnóstico ou acolhimento adequados, e a endometriose é um exemplo dessa realidade", afirmou Janja. "Por isso, essa iniciativa do MCTI é tão importante, ela direciona atenção e investimentos para pesquisas sobre uma condição que afeta milhões de brasileiras".
Causa desconhecida
A endometriose é uma doença benigna muito heterogênea, conforme explica Afrânio Coelho, chefe da Ginecologia do HUCFF (Hospital Universitário Clementino Fraga Filho). "Trata-se de um tecido uterino — a mucosa que reveste por dentro o útero — que surge em outros locais do corpo. Isso pode ocorrer nas trompas, no ovário, na pélvis, no intestino, no apêndice”.
O principal sintoma da endometriose é a dor pélvica intensa, que aumenta no período menstrual. A dismenorreia progressiva — quando a cólica piora com o passar dos anos — também exige atenção, segundo Afrânio.
As causas da doença ainda não foram totalmente identificadas. Porém, segundo o médico, a condição é frequentemente associada a alterações do sistema imunológico, acometendo mulheres de diferentes faixas etárias, sobretudo no período reprodutivo.
Dados inéditos divulgados pelo Alana e pelo Instituto Equidade.info estimam que dores menstruais fortes ou moderadas atingem seis em cada dez alunas de ensino fundamental e médio no Brasil. Já quatro em cada dez faltam às aulas mensalmente por conta das cólicas.
Ainda assim, as dores menstruais e pélvicas permanecem pouco visíveis nos registros oficiais de saúde. Uma pesquisa com dados de 469 mil meninas e mulheres do Recife (PE) mostrou que apenas 0,5% delas tinham registro formal desses tipos de incômodo. Quando os pesquisadores interpretaram os prontuários das participantes, eles identificaram mais de 41 mil casos relacionados a essas dores —o equivalente a 9% da base analisada.
“Há muito tempo, a dor menstrual é tratada como algo normal, o que contribui para invisibilizar doenças como a endometriose e atrasar o acesso ao diagnóstico e ao cuidado", avalia a CEO do Alana, Flavia Doria. "Quando a ciência olha para esse tema, ela também ajuda a reconhecer experiências que impactam a escola, o trabalho, a saúde mental e o desenvolvimento pleno de milhões de meninas e mulheres”.
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