'Uso indiscriminado'
Canetas ‘fake’ e uso sem receita aumentam perigo de complicações graves
Saúde | 27 de Abril de 2026 as 10h 38min
Fonte: Gazeta Digital

O uso indiscriminado das chamadas canetas emagrecedoras tem preocupado especialistas e acendido um sinal de alerta sobre os riscos do emagrecimento sem acompanhamento médico em Cuiabá, e em todo país. Em entrevista especial para o GD, a endocrinologista Renata Pinto Camiá, 50, afirma que, apesar de serem “excelentes opções para perda de peso”, esses medicamentos precisam ser prescritos de forma individualizada e monitorados de perto para evitar complicações que podem ir de efeitos gastrointestinais a quadros graves, como pancreatite, lesão renal e até óbito em casos de produtos adulterados.
Formada há 27 anos pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), especialista em Clínica Médica e Endocrinologia e Metabologia pela Santa Casa de São Paulo, Renata atua desde 2024 em Cuiabá e reforça que nenhuma medicação é livre de riscos.
“Como qualquer medicamento, é necessário acompanhamento médico, pois nenhuma medicação é isenta de efeitos colaterais e contraindicações”, destaca. Segundo ela, o seguimento profissional é essencial para avaliar a resposta do paciente, ajustar doses e manejar efeitos indesejados e possíveis complicações, como “pancreatite, alterações hepáticas, colelitíase e perda de massa muscular”.
A médica explica que os análogos de GLP-1, como semaglutida e liraglutida, além dos duplos agonistas, como a tirzepatida, se popularizaram como ferramentas eficazes no tratamento da obesidade. Ainda assim, ela pondera que “nem todas as pessoas respondem da mesma maneira ou têm indicação para o uso”, o que torna perigoso o consumo motivado apenas pela busca de um emagrecimento rápido.
Na avaliação da endocrinologista, o risco aumenta ainda mais quando essas medicações são utilizadas sem orientação especializada.
“O que observamos atualmente é o uso indiscriminado dessas medicações, especialmente devido à comercialização irregular, como produtos vindos do Paraguai, onde o paciente tem acesso sem receita médica. Isso aumenta significativamente o risco de efeitos colaterais e complicações”, afirma. Entre os problemas já observados, ela cita “disfunções gastrointestinais graves com necessidade de intervenção cirúrgica”, além de desidratação causada por vômitos e diarreia, que pode evoluir para lesão renal.
Produtos 'fake'
Outro ponto grave, segundo Renata, é a circulação de produtos falsificados. “Já existem relatos de canetas adulteradas contendo insulina, levando a hipoglicemia severa, internações e até óbito”, alerta. Ela também chama atenção para o uso inadequado por pessoas que não apresentam indicação clínica. “Sem acompanhamento, pessoas com peso normal ou até mesmo magras, têm utilizado essas medicações de forma inadequada, buscando perder poucos quilos sem considerar os riscos envolvidos”, observa.
Medidas reguladoras
Para conter o uso descontrolado, a endocrinologista defende que medidas regulatórias só terão efeito real se vierem acompanhadas de fiscalização.
“Em teoria, já existe a obrigatoriedade de retenção de receita, mas é essencial fortalecer a fiscalização sobre a cadeia de distribuição, incluindo o controle de insumos e o combate ao transporte clandestino de produtos sem registro”, pontua. Ela também considera indispensáveis campanhas educativas para orientar a população sobre a importância do tratamento com supervisão médica, sem que isso comprometa o acesso de quem realmente precisa da medicação.
Renata lembra que a obesidade é uma doença complexa e de grande impacto coletivo. “A obesidade é uma doença epidêmica e está associada a mais de 170 condições, como câncer, AVC, infarto, osteoartrose, apneia do sono, morte súbita e diabetes”, afirma. Para ela, o debate não pode se limitar à estética nem ao consumo do medicamento, mas precisa incluir políticas públicas que ampliem o acesso a especialistas e ao tratamento, hoje ainda marcado pelo alto custo.
Embora reconheça o avanço representado pelas canetas no tratamento da obesidade e do diabetes, a médica rejeita a ideia de que elas sejam uma solução isolada ou milagrosa.
“Não fazem milagres. São doenças crônicas e o tratamento eficaz depende da associação com mudanças no estilo de vida, incluindo alimentação adequada e prática regular de atividade física”, ressalta. Ela acrescenta que estudos já mostram possibilidade de reganho de peso após a interrupção da medicação, o que reforça a necessidade de acompanhamento contínuo.
Nesse cenário, a endocrinologista defende uma abordagem multiprofissional, com atuação conjunta de médico, nutricionista e educador físico, tanto durante quanto após o uso do medicamento. O objetivo, segundo ela, é garantir que a perda de peso seja sustentável e venha acompanhada de melhora real na saúde, e não apenas de resultados rápidos na balança.
Emagrecimento em massa
Ao analisar o fenômeno do emagrecimento em larga escala, Renata reconhece que já há reflexos positivos em alguns países, inclusive com mudanças no consumo alimentar e impactos econômicos indiretos. Ainda assim, faz uma ressalva importante: “O emagrecimento em massa só é realmente positivo quando ocorre de forma saudável e sustentável”. Para isso, ela defende maior controle sobre alimentos ultraprocessados, restrição do acesso por crianças, incentivo a espaços públicos para atividade física e ampliação do tratamento adequado na rede pública.
A endocrinologista deixa claro que a discussão sobre as canetas emagrecedoras não deve ser guiada pela pressa ou pelo padrão estético, mas pela segurança do paciente. Sem acompanhamento, o que promete emagrecimento rápido pode esconder riscos severos e transformar um tratamento eficaz em ameaça à saúde.
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