Alterações durante as janelas
Risco climático mudou o calendário de plantio em quase 60% dos municípios brasileiros
Zarc completa três décadas como parâmetro de políticas de financiamento e seguro rural
Rural | 27 de Abril de 2026 as 12h 58min
Fonte: Globo Rural

Quase seis em cada 10 municípios brasileiros passaram por mudanças no zoneamento de riscos climáticos após atualização na base de dados do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), que está completando 30 anos.
A comparação revela que 3.285 cidades tiveram alterações na duração das janelas de plantio, o que significa 58,9% do total de 5.569 municípios brasileiros. Outras 2.284 unidades não tiveram mudanças.
A atualização, que será abordada na 9ª Reunião da Rede de Pesquisa Zarc, nos dias 28 e 29 de abril, usa séries históricas sobre o clima do período entre 1992 e 2022, em substituição ao intervalo de 1983 a 2013.
Segundo Eduardo Monteiro, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital e coordenador da Rede Zarc, as mudanças ocorreram pela ampliação do volume de séries históricas e, possivelmente, por efeitos de mudanças climáticas.
"A base antiga possuía 3,5 mil séries de dados históricos de 30 anos. Usamos esse intervalo para reduzir a variabilidade normal. A base nova possui 4,2 mil séries históricas de 30 anos. Não é um estudo sobre mudanças climáticas, mas para atualizar o zoneamento de risco”, explica.
O Zarc é uma das principais referências para políticas públicas relacionadas a financiamento via Plano Safra, e também para o Programa de Seguro Rural (PSR) e o Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro).
Após testes em 2025, a nova base já valerá no ciclo 26/27 para os Estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e deve ser expandida para todo o Brasil no ciclo seguinte.
Janelas de plantio
Do total de 3.285 cidades com mudanças no zoneamento de risco, 1.474 apresentaram redução da janela de plantio. Este quadro ocorreu principalmente no Sudeste e Nordeste em áreas de transição de Zona da Mata para semiárido.
“Nestas regiões, vemos mais claramente uma tendência de encurtamento das janelas de cultivo. Quando isso ocorre, fica mais difícil viabilizar uma segunda safra, o que afeta o risco para financiamento e seguro rural”, frisa Eduardo.
A janela de plantio ideal considera, no mínimo, 13 decêndios (período de 10 dias), o que permite o plantio de soja na primeira safra e milho na segunda safra. “Algumas cidades tinham até 16 decêndios e, agora, claramente têm menos”, relata.
Por outro lado, 1.811 municípios apresentaram ampliação de janela de plantio após a atualização da base, principalmente nas regiões Norte e Sul.
O saldo de 337 municípios com janelas maiores, no entanto, não pode ser visto isoladamente. "Quando usamos bases iguais, o cenário muda. Ou seja, esse aumento reflete uma base maior”, explica.
O número de municípios com janela ideal (maior ou igual a 13 decêndios) saiu de 1.165, no intervalo entre 1984 e 2013, para 1.190 no período de 1993 a 2022.
Neste sentido, 180 cidades saíram do risco “moderado”, principalmente em São Paulo, Minas Gerais e Nordeste, enquanto 205 entraram, o que representa um aumento de 25 municípios com esse perfil.
A classificação "moderada" indica risco de até 40% para a segunda safra e é o limite para concessão de crédito em algumas linhas do Plano Safra, por exemplo.
Mesma base
Um artigo publicado pela equipe da Embrapa mostra alterações relevantes em indicadores de clima quando são usadas bases equivalentes de séries históricas. Os dados mostram mudança no padrão de chuvas e aumento de temperatura e evapotranspiração (“transpiração" das plantas) em diversas regiões do país.
No caso das precipitações, a diminuição ocorreu principalmente no início da estação chuvosa (agosto-setembro) na região central do Brasil. Já na região Sul, a redução das chuvas concentrou-se no mês de abril, mas com aumento em outubro.
De acordo com o estudo, a temperatura aumentou cerca de 5% e a evapotranspiração, 10%, o que pode afetar significativamente a produção agrícola em regiões produtoras de grãos.
“Nesta análise, nossas principais preocupações são o Brasil central, incluindo Centro-Oeste, Sudeste e Nordeste. Curiosamente, as mudanças mais acentuadas ocorrem justamente nos meses que coincidem com as janelas de plantio”, diz.
De acordo com o coordenador do Zarc, as janelas têm apontado para um plantio mais tardio e término antecipado, com o ciclo da soja pressionado e menos tempo para a segunda safra.
"A agricultura precisará se adaptar a esse clima mais restritivo nos municípios com redução de janelas de plantio”, acrescenta.
Novo Zarc
Segundo a Embrapa, o Zarc favoreceu a redução de 76% nas perdas de produção por questões climáticas nas propriedades adotantes em relação às operações sem este referencial.
Segundo Eduardo, o próximo passo da plataforma será considerar também os níveis de manejo. O chamado ZarcNM utilizará uma nova metodologia de classificação da qualidade do manejo de solo de forma conjunta à avaliação de risco do clima.
“A atualização torna possível mensurar essas duas dimensões de forma integrada, quantitativa e objetiva. A premissa é uma subvenção diferenciada no crédito e no seguro rural para operações com práticas que reduzem riscos e preservam o solo e os recursos hídricos”, informa.
Na safra 2025/26, o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) testou a viabilidade operacional de classificar lavouras em quatro níveis de manejo (NM1 a NM4) e premiar com subvenção diferenciada os produtores com boas práticas de manejo.
Contudo, o estudo da Embrapa aponta que 70% de um grupo de 263 produtores do Paraná e do Mato Grosso do Sul tiveram níveis 1 e 2 de manejo do solo, considerado baixo.
“O grande desafio agora é a escalabilidade dessa operação para os milhares de contratos anuais do PSR e, oportunamente, do Proagro”, finaliza.
✅Siga o canal do GC Notícias no WhatsApp.
📷Siga nosso perfil no Instagram.
Notícias dos Poderes
Produção de grãos deve chegar a 367 milhões de toneladas na safra 2026/27 e daria para alimentar 2 bilhões de pessoas
Estimativa aponta crescimento de 1,4% na produção nacional, puxado pelas perspectivas de aumento nas safras de soja e milho
16 de Outubro de 2026 as 09h58Juiz extingue ação que cobrava R$ 1 bi de gigantes do agro em MT
Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso alegava prejuízos à livre concorrência
15 de Outubro de 2026 as 09h20Brasileiro já ganhou mais de US$ 8 milhões em montarias de touros nos EUA
Embora a competição tenha os EUA como palco, brasileiros aparecem entre os competidores que acumularam as maiores fortunas
14 de Outubro de 2026 as 11h40Mato Grosso exporta US$ 2,1 bilhões em setembro para 115 países
Entre janeiro e setembro, Mato Grosso vendeu US$ 26,5 bilhões ao mercado internacional, crescimento de 16,9% em relação a 2025
14 de Outubro de 2026 as 15h00Exportações de carne bovina de Sinop já superam todo o ano de 2025 e crescem 27,75% em 2026
Município movimentou US$ 70,9 milhões com a venda de carne bovina entre janeiro e setembro; China lidera as compras de produtos sinopenses no acumulado do ano
13 de Outubro de 2026 as 13h30Eleição na Aprosoja MT movimenta chapas concorrentes
A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT) é uma das entidades de classe mais importantes do estado. Dos seus quadros costumam sair novas lideranças que ocupam espaços na política.
07 de Outubro de 2026 as 15h14Churrasco mais barato? O que muda após Brasil esgotar cota de carne para a China
Demanda doméstica, exportações e menor oferta de animais podem sustentar alta dos preços no país
05 de Outubro de 2026 as 12h46Carne brasileira vai pagar tarifa de 67% para entrar na China
Sobretaxa de 55% começa após Brasil esgotar cota anual de exportação
02 de Outubro de 2026 as 12h30