Mercado agro
Número de recuperações judiciais alcança novo recorde no agro
Segundo a consultoria RGF&Associados, havia 443 processos em andamento no terceiro trimestre; melhora do quadro no setor pode ficar para 2027
Rural | 02 de Dezembro de 2025 as 10h 25min
Fonte: Globo Rural

O ciclo de aumento do número de pedidos de recuperação judicial entre as empresas do setor agropecuário — reflexo do alto endividamento e da diminuição da rentabilidade no campo nos últimos anos — deve persistir em 2026. Segundo economistas e especialistas em reestruturação, o quadro só deverá melhorar a partir de meados de 2027, como resposta à valorização das commodities agrícolas e à queda dos juros, que reduz o custo do crédito.
Por ora, o cenário continua turbulento. No terceiro trimestre, havia 443 empresas do agro em recuperação judicial, o que representou um aumento de 67,8% em relação ao mesmo período do ano passado, conforme dados do Monitor RGF, da consultoria RGF&Associados. Esse é o maior número para um só trimestre em toda a série histórica do levantamento.
Segundo a consultoria, o agro é hoje, proporcionalmente, o setor com mais companhias em processo de recuperação judicial. No terceiro trimestre, de cada mil empresas do agronegócio em atividade, 12,63 estavam em recuperação judicial, de acordo com o indicador IRJ. Na indústria de transformação, a segunda colocada nesse ranking, o IRJ era de 6,49. A média nacional estava em 2,04.
“Esse patamar elevado se explica por quatro características estruturais do setor: alto capital intensivo, com dívidas maiores do que as de outros setores; exposição a múltiplos choques simultâneos, como preço, clima e câmbio; estrutura de financiamento frágil, pois financia necessidades de longo prazo com dívidas curtas; e falta de profissionalização entre grupos familiares”, afirma Rodrigo Gallegos, sócio da RGF.
Com e sem falência
O Monitor RGF informa ainda que, das oito empresas do setor agropecuário que saíram de recuperação judicial no terceiro trimestre, quatro faliram. As outras quatro voltaram a operar sem necessidade de supervisão judicial.
Gallegos observa que o crescimento recente do número de recuperações judiciais começou a tomar forma ainda na década passada. Naquele momento, com margens altas e aumento de exportações, diz ele, produtores e agroindústrias ajustaram suas estruturas e dívidas para crescer.
No entanto, problemas climáticos e econômicos, além de questões cambiais, pressionaram as margens e os custos financeiros, aumentando o endividamento e a inadimplência de algumas empresas. Para Gallegos, com taxa básica de juros (Selic) em 15% e restrições de crédito, as recuperações judiciais devem continuar a crescer no setor no quarto trimestre.
“O arrefecimento pode vir no fim de 2026, mas, mais provavelmente, em 2027, com a queda do custo financeiro — que deve ser gradativa, até a Selic recuar para menos de dois dígitos — e também com o uso de ferramentas pré-recuperação judicial”, afirma.
"Dois anos para melhorar"
O economista Fábio Silveira, sócio da consultoria MacroSector, concorda que o setor agropecuário tende a levar cerca de dois anos até que tenha condições de sair do ciclo de aumento do número de recuperações judiciais.
“Esse processo de piora da rentabilidade e de aumento da inadimplência, sobretudo no Centro-Oeste, levou cerca de dois anos para acontecer, então serão necessários mais dois anos para que melhore”, estima Silveira.
Para ele, a situação já compromete o aumento da produção de grãos no ano que vem, já que limita a expansão de áreas — e não há sinais de aumento de preços das commodities nem de barateamento dos insumos agrícolas. “Os preços ainda estão bastante enfraquecidos em termos históricos. O ano de 2026 não será de recuperação da rentabilidade”, avalia.
Silveira acredita que, para o setor conseguir atravessar a fase de turbulência, o governo precisaria ser mais ativo na liberação de subsídios, assim como fazem concorrentes do agro nacional, como os Estados Unidos. O governo brasileiro tem renegociado dívidas de produtores afetados por problemas climáticos nos últimos anos.
Debate sobre governança
Camila Crespi, advogada especialista em reestruturação empresarial, acredita que as recuperações judiciais no setor continuarão em alta em 2026. Para ela, o debate sobre insolvência rural precisa evoluir — e isso passa por discussão sobre evolução da governança. “A procura por instrumentos alternativos de resolução de conflitos, como a mediação empresarial, é uma boa saída. Mesmo assim, muitos recorrem à recuperação judicial em razão do benefício legal da blindagem patrimonial”, afirma.
Para Cybelle Guedes Campos, sócia da Moraes Junior Advogados, os devedores, sejam produtores rurais ou empresas do setor, que passarem pela recuperação judicial têm que adotar práticas de gestão mais rigorosas, incluindo controle de preços e de custos e planejamento financeiro de longo prazo. “A crise atua como um catalisador para a profissionalização da gestão rural. Ademais, a crise no setor tem levado a uma reavaliação das práticas de concessão de crédito pelos credores”, diz.
Ela afirma que, na renegociação extrajudicial, há mais rigor na análise de risco, mas também mais flexibilidade. Essa modalidade é uma opção que não tem o custo e a morosidade do processo de recuperação judicial.
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