Fenômeno climático
El Niño mais forte pode impactar soja, milho, café e laranja no Brasil
Os maiores riscos concentram-se no período entre setembro e novembro, quando ocorre o plantio da safra de verão e são esperadas temperaturas elevadas e irregularidade das chuvas em diversas regiões produtoras
Rural | 14 de Julho de 2026 as 13h 30min
Fonte: CNN Brasil

O Brasil pode enfrentar um novo episódio de El Niño de forte intensidade justamente durante o início do plantio da safra 2026/27. Embora os especialistas afirmem que ainda é cedo para confirmar a intensidade definitiva do fenômeno, os modelos climáticos apontam uma elevada probabilidade de que ele alcance a categoria de "muito forte" entre setembro e novembro.
O alerta foi feito pelo pesquisador do Observatório de Bioeconomia da FGV Agro e professor da Fundação Getulio Vargas, Eduardo Assad, durante encontro com jornalistas promovido pelo iCS (Instituto Clima e Sociedade).
Segundo Assad, o fenômeno ainda permanece em fase de observação e sua classificação definitiva deve ocorrer no fim de julho. No entanto, os principais modelos climáticos internacionais projetam que o aquecimento das águas do Oceano Pacífico poderá atingir cerca de 2°C acima da média, caracterizando um El Niño muito forte.
"O que podemos afirmar hoje é que ele já é um El Niño forte e existe uma grande probabilidade de evoluir para muito forte nos próximos meses. Ainda não é possível bater o martelo, mas os modelos caminham nessa direção", afirmou.
O pesquisador destacou que, nos últimos dez anos, três eventos de El Niño muito forte já foram registrados, frequência considerada incomum quando comparada às séries históricas analisadas.
Perdas podem chegar a 10%
De acordo com Assad, experiências recentes mostram que episódios intensos do fenômeno costumam reduzir a produtividade agrícola brasileira.
"Quando analisamos o evento de 2024/25, observamos perdas de até 10% na produção nacional, segundo dados da Conab. Não significa perda da safra inteira, mas houve redução importante de produtividade", explicou.
Os maiores riscos concentram-se justamente no período entre setembro e novembro, quando são esperadas temperaturas elevadas e irregularidade das chuvas em diversas regiões produtoras.
No Centro-Oeste e em parte do Norte do país, a combinação de calor intenso e deficiência hídrica pode afetar principalmente soja e milho. Já no Sudeste, culturas perenes como café e laranja estão entre as mais vulneráveis.
"No café, por exemplo, temperaturas elevadas e falta de água durante a florada podem provocar abortamento das flores e reduzir significativamente a produção. A citricultura também está bastante preocupada", disse Assad.
Na Região Sul, por outro lado, o problema tende a ser o excesso de chuvas e de calor, cenário que também pode provocar perdas nas lavouras.
Replantio pode elevar custos da safra
O pesquisador da FGV Agro Guilherme Soria Bastos Filho destacou que o principal desafio para os produtores será a distribuição irregular das chuvas justamente no início do plantio da soja.
Segundo ele, caso as precipitações ocorram de forma insuficiente ou muito concentrada, pode haver necessidade de replantio, elevando os custos da produção e atrasando toda a janela agrícola.
"O grande problema está no início do plantio. Dependendo da distribuição das chuvas, pode haver necessidade de replantio, como ocorreu em 2023, quando aproximadamente três milhões de hectares de soja precisaram ser replantados", afirmou.
O atraso na implantação da soja também compromete a janela do milho segunda safra, aumentando o risco para toda a produção de grãos.
Apesar disso, Bastos ressalta que os impactos variam conforme a região.
"O Brasil possui dimensão continental. Em algumas áreas pode haver redução de produtividade, enquanto outras podem registrar ganhos, compensando parte das perdas nacionais."
Seguro rural e agricultura de baixo carbono
Na avaliação dos pesquisadores, o seguro rural continua sendo uma das principais ferramentas para reduzir os impactos financeiros causados por eventos extremos.
Bastos observou, porém, que o instrumento ainda recebe poucos recursos e permanece subutilizado.
"O seguro rural garante a sustentabilidade financeira do produtor após uma quebra de safra. Infelizmente, ele continua recebendo pouca atenção dentro da política agrícola."
Já Eduardo Assad voltou a defender a ampliação das práticas da agricultura de baixo carbono previstas no Plano ABC no âmbito do Plano Safra.
Segundo ele, produtores que adotaram tecnologias conservacionistas sofreram perdas significativamente menores durante eventos climáticos recentes.
"Há regiões em que produtores que utilizavam práticas do Plano ABC perderam entre 10% e 15% da produção, enquanto aqueles que não adotavam essas tecnologias registraram perdas próximas de 25%", afirmou.
Assad também reforçou a necessidade de ampliar investimentos em sistemas integrados de produção, recuperação de áreas degradadas, plantio de árvores e redução do desmatamento, medidas consideradas fundamentais para aumentar a resiliência da agropecuária brasileira diante do avanço dos eventos climáticos extremos.
Embora ainda não exista consenso científico de que o aquecimento global esteja tornando o El Niño mais frequente, Assad ressalta que a combinação entre mudanças climáticas e eventos extremos exige maior capacidade de adaptação do setor produtivo.
"Independentemente da origem do fenômeno, a agricultura precisa estar preparada para conviver com eventos climáticos cada vez mais severos."
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