Comércio exterior
Brasil eleva tarifas de importação para até 20% e amplia custos em mais de mil produtos
Rural | 24 de Fevereiro de 2026 as 12h 11min
Fonte: Portal do Agronegócio

O governo brasileiro iniciou 2026 com uma mudança significativa na política de comércio exterior. Na primeira reunião do ano, realizada em 28 de janeiro, o Comitê-Executivo de Gestão (GECEX) aprovou um realinhamento das alíquotas do Imposto de Importação para bens de capital (BK) e bens de informática e telecomunicações (BIT).
A decisão foi formalizada pela Resolução GECEX nº 852/2026, publicada em 5 de fevereiro, e aumenta as tarifas de mais de 1.000 classificações fiscais, com impacto direto sobre setores industriais e de serviços que dependem de insumos importados.
As novas faixas de tributação ficaram assim definidas:
- NCMs com alíquota inferior a 7,2% passam para 7,2%;
- NCMs entre 7,2% e 12,6% passam para 12,6%;
- NCMs entre 12,6% e 20% passam a ter alíquota de 20%.
Na prática, o aumento pode chegar a 7,2 pontos percentuais, afetando diretamente empresas que utilizam máquinas, peças, equipamentos eletrônicos e componentes tecnológicos.
Para Mauro Lourenço Dias, presidente do Fiorde Group, o impacto é amplo:
“O aumento das alíquotas impacta diretamente a capacidade de investimento das empresas. Máquinas e tecnologias são fundamentais para produtividade. Com custos mais altos, projetos são adiados e a competitividade do Brasil cai no cenário global.”
Efeito em cadeia: indústria, comércio e consumidor
As novas tarifas atingem desde máquinas industriais até bens de consumo final, gerando reflexos em toda a economia. Entre os itens impactados estão bombas hidráulicas, válvulas, motores, equipamentos de mineração e semicondutores, além de antenas, celulares, televisores e eletrodomésticos.
O aumento das alíquotas pode se refletir:
- No custo de obras de infraestrutura, como metrôs e portos;
- No preço de eletrônicos e equipamentos de telecomunicações;
- Na manutenção de equipamentos hospitalares e serviços médicos;
- E até no valor de produtos de uso cotidiano, como motores de portão e utensílios domésticos.
De acordo com Luciano Carlos Fracola, gerente de Assessoria Aduaneira do Fiorde Group, o aumento também pressiona contratos em andamento:
“Muitos contratos foram firmados considerando alíquotas menores. O reajuste pode consumir toda a margem de operação, exigindo renegociações e até revisões contratuais para absorver o aumento de custos.”
Empresas de mineração e perfuração, por exemplo, já estimam reajustes de até 10% nos contratos, o que pode gerar atrasos em obras públicas e privadas.
Pressão inflacionária e riscos jurídicos
Economistas e consultores alertam para os efeitos inflacionários e os riscos de insegurança jurídica decorrentes da mudança abrupta. Com custos de importação mais altos, o repasse de preços deve alcançar o consumidor final e pressionar a inflação nos próximos meses.
A fim de reduzir impactos imediatos, o governo publicou a Resolução GECEX nº 853/2026, em 9 de fevereiro, permitindo pedidos de redução temporária da alíquota para 0% entre 9 de fevereiro e 31 de março. O benefício é restrito a produtos anteriormente contemplados e pode valer por até 120 dias.
Fracola avalia que a medida é paliativa:
“Essa alternativa é importante, mas temporária. As empresas precisam agir rápido e apresentar processos técnicos sólidos para tentar reduzir os impactos no curto prazo.”
Debate sobre política industrial e modernização
A elevação das tarifas reacende o debate sobre o papel da política industrial brasileira. Medidas semelhantes, como o aumento do imposto de importação de veículos nos anos 1990, buscaram proteger a indústria nacional, mas também reduziram a pressão competitiva externa e encareceram produtos.
Para Mauro Lourenço Dias, o desafio é encontrar equilíbrio entre proteção e inovação:
“O Brasil precisa fortalecer sua indústria, mas também garantir acesso a tecnologia de ponta. Aumentar impostos pode elevar a arrecadação no curto prazo, mas tende a frear a modernização e reduzir a competitividade.”
Com pouco mais de três décadas de abertura econômica, o país ainda busca um modelo que una produtividade, previsibilidade e inserção global. Enquanto isso, empresas recalculam custos, renegociam contratos e tentam se adaptar a um cenário tributário mais caro e desafiador.
Indústria nacional enfrenta desafio de competitividade
O realinhamento ocorre em um momento de obsolescência do parque industrial brasileiro, com boa parte dos equipamentos em uso há mais de duas décadas. A indústria nacional de bens de capital ainda não consegue atender plenamente à demanda interna nem acompanhar a modernização tecnológica global.
O regime de Ex-Tarifário, que permite importação com alíquota zero de bens sem similar nacional, era até então um mecanismo essencial para estimular investimentos e atualização tecnológica. Contudo, o processo para obtenção do benefício, conduzido pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), pode levar até 120 dias entre análise técnica, consulta pública e deliberação do GECEX — tempo que agora pode significar custos adicionais às empresas.
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