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Política

Da pandemia para o Parlamento

Figura central na gestão da saúde durante a pandemia, Gilberto mira agora a Assembleia Legislativa

Entrevista | 28 de Abril de 2022 as 18h 22min
Fonte: Jamerson Miléski

Foto: GC Notícias

“Enfrentar essa pandemia foi o maior desafio da minha vida, mas eu não gostaria de ser avaliado apenas por isso”. A fala é do ex-secretário de Saúde de Mato Grosso, Gilberto Figueiredo. Ele esteve na redação do GC Notícias nesta quarta-feira (27), quando concedeu uma entrevista falando dos gargalos da saúde pública em Mato Grosso, dos desafios gerados pela pandemia e do seu projeto político para 2022.

Gilberto conduziu a secretaria de Saúde de Mato Grosso desde o primeiro dia de governo da gestão Mauro Mendes, em janeiro de 2019, até o final de março deste ano, quando entregou o cargo para estar apto a disputar a eleição. Com isso se tornou o secretário de Saúde que se manteve no cargo por mais tempo nos últimos 20 anos. “E sem corrupção. Foram 3 anos e 3 meses de gestão, gerindo um orçamento de mais de R$ 2 bilhões por ano, sem que houvesse um escândalo ou uma operação. Antes disso, era comum gente saindo da secretaria preso”, comentou o ex-secretário.

Gilberto é considerado um dos “homens de confiança” de Mauro Mendes. Quando Mendes presidiu a FIEMT (Federação das Indústrias de Mato Grosso), Gilberto estava na equipe, conduzindo o Senai. Quando Mendes foi eleito prefeito de Cuiabá, Gilberto foi recrutado para ser secretário municipal de Educação. A escolha tinha lógica, visto que Gilberto é um funcionário de concursado da Educação. “Peguei uma secretaria com R$ 135 mil no caixa, fizemos 100 obras ao longo do mandato e entreguei a pasta com R$ 41 milhões em caixa”, orgulha-se Gilberto.

Da mesma forma que fez em 2022, em março de 2016 Gilberto deixou a secretaria de Educação de Cuiabá para alçar sua candidatura a vereador. Foi eleito. Dois anos depois Mauro Mendes assumiu o Governo do Estado é pinçou Gilberto para a secretaria de Saúde. “O governador garantiu na campanha que iria priorizar a saúde. Eu não era da saúde, mas tinha experiência em gestão pública e ele [Mauro Mendes], depositou confiança em meu trabalho. Mesmo antes de imaginar que haveria uma pandemia pela frente, já era um grande desafio”, lembra o ex-secretário.

Quando Gilberto assumiu a Secretaria de Saúde de Mato Grosso, a pasta tinha uma dívida superior a R$ 600 milhões. Empresas, como fornecedores de medicamentos, equipamentos ou mesmo de mão de obra, já não aceitavam mais vender para o Estado. Os repasses para os municípios estavam atrasados em 11 meses. Nos hospitais regionais, contratos de gestão firmados com OSS estavam sob intervenção. “Era um caos instalado e a primeira coisa que precisávamos fazer era resgatar a credibilidade”, conta.

Saúde em frangálhos

Nesse “bolo” estava o Hospital Regional de Sinop. Com 15 dias, Gilberto tomou a gestão da unidade de volta para tutela do Estado. O contrato com a OSS foi suspendo e depois reincidido. A mesma fórmula acabou sendo aplicada em outras unidades. “O modelo de gestão com OSS não é necessariamente ruim. Ele pode funcionar. Não funcionou porque os contratos foram mal feitos. Havia sobre preço, falta de fiscalização e de mensuração”, afirmou.

Logo a Secretaria conseguiu colocar em dia o repasse para os municípios, saldou as dívidas com fornecedores e voltou a ter crédito. Casa em ordem, era hora de melhorar a estrutura de saúde. Gilberto conta que as reformas e ampliações nos Hospitais Regionais foram lentas. “Não é fácil reformar um hospital que está funcionando. Além da dificuldade de fazer uma obra no mesmo local que tem pessoas doentes e internadas, em um local que faz cirurgia, também teve a questão da oferta. Quando a pandemia estourou era difícil contratar até uma construtora”, comenta o ex-secretário.

E não foi por falta de dinheiro. Segundo Gilberto, nunca foi investido tanto na saúde como nos últimos anos. O Governo abriu o caixa para saúde. O recurso existia, só não tinha o que comprar. Com um cenário de contaminação global, quase todos os insumos que abastecem à saúde se tornaram raros. “Nossa dificuldade foi técnica. Tinha dinheiro mas não tinha o produto. O mercado não estava preparado para a demanda que a pandemia provocou. Faltavam até profissionais qualificados. Não tinha gente para contratarmos”, relembra.

Assim como ocorreu em outros lugares do país, os profissionais da linha de frente acabaram alvejados pelo Covid-19. Gilberto contraiu a doença duas vezes. Na primeira teve uma forma mais branda da doença. “Na época achei: bom, agora estou com imunidade natural. Me descuidei e acabei pegando de novo”, conta.

 

Correu para São Paulo

Na segunda infecção, Gilberto precisou ser hospitalizado. Acumulando duas comorbidades – diabetes e doença de Crohn – o quadro do ex-secretário se agravou. Mas foi a saúde pública de Mato Grosso que salvou a sua vida. Gilberto acabou fazendo seu tratamento no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Segundo ele, contra a vontade.

Na entrevista ao GC Notícias, Gilberto disse que seu desejo era ser internado na Santa Casa, em Cuiabá. “Era o hospital que eu tinha resgatado. Eu queria provar que funciona”, comentou. As condições de saúde do ex-secretário influenciaram na decisão de procurar uma unidade com mais estrutura. Mas não foi o único. “Eu já tinha plano de saúde, que pago há muito tempo. Então meu filho perguntou: você vai mesmo ocupar um leito de UTI do SUS aqui em Mato Grosso sendo que tem condições de estar em outro Hospital? E então eu percebi que poderia acabar tirando o leito de alguém no Estado, sem precisar”, conta Gilberto.

O tratamento em São Paulo funcionou e o ex-secretário voltou para o ofício. O avanço da vacinação foi reduzindo o número de contaminados e de óbitos. Aquele cenário de pânico, falta de leitos e um volume de doentes maior do que a capacidade de tratar foi sendo diluído. Hoje o Estado vive uma sensação de “normalidade”. “As pessoas não enxergam o que o SUS faz, elas só enxergam o que o SUS deixa de fazer. Nós nunca falamos nas milhares de vidas que foram salvas pela rede de saúde pública, que graças ao atendimento não morreram e que agora tem a oportunidade de continuar suas vidas mesmo tendo sido contaminadas. O que as pessoas acabam vendo é o que o SUS não fez, e a parte mais dolorida de se ver são justamente as mortes. É algo compreensível”, comentou o ex-secretário.

 

Projeto político

Gilberto vai disputar a eleição para deputado estadual. Filiado ao DEM, ele acabou migrando automaticamente para o União Brasil – resultado da fusão do partido com o PSL. Como faz parte do chamado “núcleo duro” de Mauro Mendes e foi um secretário com desempenho considerado positivo, a tendência é pensar na candidatura de Gilberto como uma “injeção” para a chapa de deputados do grupo do governador do que como um projeto sólido. Em miúdos: a candidatura de Gilberto ajudaria a aumentar o volume de votos da legenda, que já tem 4 deputados eleitos nesta legislatura.

O GC Notícias questionou o ex-secretário sobre isso. Gilberto disse que não está se transformando em político agora. “Eu já fui vereador. Eu sonho em ser prefeito de Cuiabá. Estou buscando uma carreira política e venho investindo nisso”, argumentou, referindo-se ao fato de atuar duas vezes como secretário.

Gilberto lembra que era sua pretensão ter disputado a prefeitura de Cuiabá em 2020, o que acabou não acontecendo. “Esperávamos uma mudança no calendário eleitoral em função da pandemia, o que acabou acontecendo. No entanto, adiaram a eleição, mas não mudaram o período de descompatibilização. Eu acabei permanecendo no cargo de secretário, o que me tornou inelegível. A decisão de adiar ao máximo a saída da secretaria foi em razão da pandemia. Mudar a gestão da pasta naquele momento traria prejuízos”, explicou.

Agora, com a pandemia caminhando para o fim, Gilberto se sentiu confortável em entregar o cargo, transmitir a gestão para outra pessoa e apresentar suas credenciais para o eleitorado. “Algumas pessoas me dizem que a pandemia foi uma grande oportunidade que apareceu na minha vida como político, por conta da visibilidade que os secretários de saúde acabaram ganhando. Eu digo que se eu pudesse escolher, preferiria não ter essa oportunidade então”, concluiu o ex-secretário.