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Operação Bóreas

Sócia do Tatu Bola participava de esquema com três aviões que enviavam droga à África e Europa, diz PF

Magistrado aponta que organização criminosa contava com três aeronaves e divisão de tarefas em quatro núcleos. Advogada e sócia de bar investigada cumpre medidas cautelares.

Polícia | 31 de Agosto de 2026 as 13h 20min
Fonte: Repórter MT

Foto: Reprodução

A complexa engrenagem internacional de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro desbaratada pela Polícia Federal, no âmbito da Operação Bóreas, revela uma rota estruturada para abastecer o Brasil, África e Europa. A investigação, feita pelo Ministério Público Federal (MPF) e detalhada em decisão do juiz federal André Dias Irigon, da 4ª Vara Federal Criminal do Tocantins, aponta que o grupo operava com, ao menos, três aeronaves.

Entre os alvos está a advogada e empresária Thatiana Rabelo Mesquita Theodoro, sócia do bar Tatu Bola, localizado na Praça Popular, em Cuiabá. Diferente de papéis de liderança na cúpula da facção, a denúncia aponta que a atuação de Thatiana se concentrava no núcleo de ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro. Durante cumprimento de mandato, a PF apreendeu R$ 84,8 mil em dinheiro vivo, um Volkswagen T-Cross e um iPhone na casa dela.

A defesa obteve a revogação da prisão em audiência de custódia, e agora Thatiana responde ao processo em liberdade, como o uso de tornozeleira eletrônica, entrega de passaporte e proibição de viajar.

A frota de aeronaves

A decisão judicial esmiúça o funcionamento de uma organização criminosa dotada de núcleos de liderança, logística, execução de voos, segurança armada e engenharia financeira. De acordo com as apurações, o grupo valia-se de ao menos três aeronaves para internalizar cargas massivas de cocaína provenientes da região do Chapare, na Bolívia, e do Peru, utilizando pistas clandestinas em países vizinhos e em estados brasileiros como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Tocantins.

Os aviões identificados e apreendidos por ordem judicial são:

- Um bimotor Cessna 210 (prefixo PS-PIX)

- Um monomotor Cessna 182

- Um bimotor Bonanza (prefixo PT-IDT)

A interceptação dos celulares apreendidos mapeou pelo menos nove operações idênticas realizadas entre novembro de 2024 e fevereiro de 2025, com transportes recorrentes de 450 a 500 quilos de cocaína por voo, além de cargas de armamentos de grosso calibre, como fuzis.

Veja trecho das interceptações telefônicas que mostram o papel de cada investigado

Eron Ferreira Barata Fonseca ("Boy" ou "Paulista"): Apontado como proprietário de fato das aeronaves e coordenador dos fretes. Em uma das interceptações, ao ser cobrado sobre cargas perdidas de terceiros, ele define sua função sem rodeios:

Sou freteiro, meu mano, eu sou freteiro, eu trabalho para quem tem droga, quem tem droga eu puxo, entendeu? Eu sou freteiro, tá entendendo? Agora, eu não sou, eu não sou justiceiro não, meu mano, para pegar a droga que o mano perdeu lá, para estar querendo alguma coisa para o mano não, eu sou freteiro, não justiceiro, é diferente, não estou atrás dele, perder o bagulho...

Matheus Matias de Oliveira ("Teteu") e Hebert Alves Chapino ("Ayrton Senna" ou "Toddynho"): Encarregados de repassar coordenadas, frequências de rádio e suporte em terra. Em uma das mensagens, repassam a exata logística de uma pista clandestina:

Chapa: 16 23 26 S / 065 49 21 W. Frecuencia: 135.500... Pata: 16 41 54 S / 059 25 07 S. Freq: 131.000... Cap: tem almoço? Solo: tem feijoada”.
Em outra conversa sobre reabastecimento, Teteu orienta:
Tranquilo, lá tem três galões no final e é 450”.

Núcleo de pilotos era ormado por Márcio Rabello Mesquita Theodoro ("Pollo"). Ele é irmão de Thatiana, preso em fevereiro de 2025 com 475 kg em Caseara-TO), Herivelto Pinto de Sousa ("Cabeça"), Whylason Ribeiro da Silva Neto ("Capitão Neto") e Cleverson Vale Amorim ("Clevinho"). As conversas entre os pilotos revelam a pressão e o volume de dinheiro envolvido. Em áudio a Anderson, Pollo dispara:

Escuta, eu vou fazer meio milhão de dólares, pô, só esse mês. Em nome de Jesus, fica na torcida aí... Quero fazer 1M.

Em outro momento, reclamando do peso excessivo da droga e do risco de queda, Pollo diz a Teteu:
Mano, 600 não dá. 500. Saiu horrível, mano. Quase bati”.
Sobre o transporte concomitante de armamentos pesados, um diálogo com Ayrton Senna é explícito:
Ayrton: Pai pediu se amanhã dá para levar 5 só? / Pollo: Blz eu levo. Sem bala!”.

Anderson Santos Passos: Gerenciava transferências e conversões de moedas. Em diálogo com Pollo sobre empréstimos em bolivianos para custear as operações durante períodos chuvosos, Anderson pontua:

O boy mandou uma msg aqui para passar 30 para você... A gente abate esses que eu fiz ontem, hoje. Daqui a pouco eu faço tudo certinho e te mando aí”.

Thatiana Rabelo Mesquita Theodoro: Atuava na lavagem de capitais utilizando contas de fachada e oferecendo bens de luxo para dissimular os ganhos do tráfico. Consta nos autos abordagem em que ela tenta comercializar itens exclusivos.

"Márcio (Pollo) e Thatiana conversam sobre aquisição de bens de elevado valor destinada à dissimulação da origem dos ativos: "E aí, Fefeco, tudo bem? Seguinte, fiz uma coleção especial de joias, seus amigos aí não querem comprar, não? Vou te mandar as fotos aqui, eu faço um preço diferenciado. Tudo ouro mesmo. Riviera em diamantes". Posteriormente, Thatiana encaminha para Márcio diferentes dados bancários para recebimento de valores, contas em nome de pessoas físicas e jurídicas diversas.

Douglas de Azevedo Carvalho ("Manxa"): Empresário que alugava a estrutura. Em mensagem direta a Pollo, negociava o escoamento:

To com duas carga para saca ali precisando saca com vocs ai dando tudo certo nós fecha eu vou saca umas 3, 4 por mês. Só q preciso de tudo. Pega lá no chapare bate no Brasil de avião e leva até bh ow sp”.

O juiz federal André Dias Irigon decretou a prisão preventiva dos foragidos que se encontram no exterior, determinou a inclusão dos nomes na Difusão Vermelha da Interpol, ordenou buscas e apreensões, autorizou a quebra e espelhamento de dados telemáticos e determinou o sequestro e arresto de bens, incluindo bloqueio de ativos via Sisbajud, indisponibilidade imobiliária (CNIB), restrição de veículos (Renajud) e o recolhimento definitivo de todas as aeronaves da organização para os pátios da Justiça Federal em Palmas (TO).