R$ 3 milhões
Lobista teria forjado mandado de prisão para extorquir empresário
Andreson teria solicitado e recebido valores de Nelson Vigolo sob o pretexto de influenciar decisões
Polícia | 02 de Junho de 2026 as 07h 30min
Fonte: Mídia News

O lobista mato-grossense Andreson de Oliveira Gonçalves, preso na Operação Sisamnes por suspeita de envolvimento em um esquema de venda e vazamento de decisões judiciais no Superior Tribunal de Justiça (STJ), é acusado de ter falsificado um mandado de prisão contra Nelson José Vigolo para tentar extorqui-lo.
A informação consta na denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentada na semana passada contra Andreson e outras seis pessoas por crimes de corrupção ativa, exploração de prestígio, lavagem de dinheiro e de integrar organização criminosa.
Entre os denunciados estão a esposa de Andreson, a advogada Mirian Gonçalves; Márcio José Toledo Pinto, ex-servidor do STJ que trabalhou em diversos gabinetes; e Daimler Campos, ex-chefe de gabinete da ministra Isabel Gallotti.
De acordo com o documento, Nelson Vigolo foi alvo da Operação Faroeste, em 2020, que apurava a venda de decisões judiciais no âmbito do Tribunal de Justiça da Bahia.
Segundo a denúncia, Andreson passou a solicitar e receber valores do empresário sob o pretexto de influenciar decisões judiciais em processos relacionados à investigação. Para o Ministério Público Federal (MPF), a conduta se enquadra no crime de tráfico de influência.
A denúncia indica que, a partir dessas tratativas, houve movimentações financeiras milionárias. Em março de 2020, foram identificadas transferências que somam cerca de R$ 3 milhões para empresa ligada ao lobista, além de saques em espécie que totalizaram aproximadamente R$ 900 mil.
Para dar credibilidade ao esquema, o lobista afirmava ter acesso privilegiado a informações sigilosas e a integrantes do gabinete do ministro Og Fernandes, relator de casos ligados à investigação no STJ. Ele dizia possuir um “amigo” dentro do gabinete, que supostamente anteciparia decisões, indicaria estratégias processuais e informaria sobre eventuais medidas, como pedidos de prisão.
"Conforme os registros telemáticos extraídos do aparelho celular de Roberto Zampieri, na manhã de 24.3.2020, Andreson enviou ao advogado reportagens que noticiavam o cumprimento, por parte da Polícia Federal, de mandados judiciais em Rondonópolis/MT, afirmando: “Acho que essa busca foi no Nelson”", consta na denúncia.
"Na sequência, transmitiu informações relacionadas ao caso, confirmando: “Foi no Nelson mesmo” e que “o amigo do OG me falou agora”. Acrescentou, pouco depois, que “esses ia sair mandado de prisão” e que “meu amigo do OG falou que ele tá fudido”, afirmando, em seguida, sobre eventual possibilidade de atuação no caso: “Tem como ajudar”".
A Procuradoria aponta, no entanto, que essa narrativa fazia parte da estratégia para convencer o empresário de que Andreson teria influência sobre o andamento do processo, aumentando a pressão para o pagamento de valores.
A denúncia também relata a apreensão de um computador na sede da Florais Transportes, de propriedade de Andreson, contendo minutas de supostas decisões judiciais relacionadas ao empresário Nelson Vigolo. Segundo a PGR, os documentos possuíam aparência de decisões do STJ, mas não correspondiam a qualquer peça oficialmente registrada no procedimento investigativo citado.
Em uma das frentes do esquema, a investigação identificou, em dispositivo apreendido, um arquivo intitulado “CONTRATO.docx”, contendo minuta de prestação de serviços advocatícios em favor de Nelson Vigolo no valor de R$ 3 milhões. O documento previa que o pagamento seria feito ao escritório Ribeiro & Martins Advogados Associados S/S — ME, vinculado a Mirian Gonçalves, esposa de Andreson.
Para a Procuradoria, as minutas indicam que o lobista utilizava a suposta iminência de prisão como forma de coação, afirmando que o empresário estava em situação crítica e poderia ser preso a qualquer momento.
"No ponto, as evidências indicam que Andreson produzia ou fazia produzir minutas apócrifas de decisões judiciais como instrumentos de reforço narrativo, destinados a conferir verossimilhança ao cenário de urgência que apresentava aos interessados. Com isso, ampliava a pressão psicológica e fortalecia a exigência de pagamento das vantagens indevidas ajustadas".
Segundo a PGR, os arquivos não correspondiam a qualquer peça oficial dos autos e sequer havia pedido de prisão contra o empresário no processo.
Descoberta após execução
As investigações da Sisamnes foram iniciadas a partir da análise do celular do advogado Roberto Zampieri, morto em 2023, em Cuiabá, em frente ao seu escritório na capital mato-grossense.
Em seu celular, foram encontradas conversas com desembargadores, empresários e Andreson.
Essa é a primeira denúncia na investigação da Operação Sisamnes, iniciada em 2024 e que trata de suspeitas relacionadas ao segundo tribunal mais importante do país.
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