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Geral

Sinopense revela o rosto do ''vampiro Tcheco''

Crânio integrava a tumba de 14 corpos conhecida como o maior cemitério de vampiros do mundo

Ciência | 04 de Novembro de 2016 as 12h 15min
Fonte: Jamerson Miléski

Em 1966 um fazendeiro de Čelákovice, uma pequena cidade na República Tcheca, na Europa Central, estava fazendo uma ampliação na sua casa. Durante as escavações, encontrou algo sólido. Entre as pedras estavam vários ossos. Assustado, o agricultor chamou a polícia local. Após uma breve análise, os policiais constataram que aquele era um assunto para outro tipo de especialista. Um padre? Não! Um arqueólogo.

A casa do camponês foi transformada em um sítio arqueológico. As buscas revelaram 14 corpos, todos de homens, sepultados em 11 diferentes tumbas. Tratava-se de um cemitério informal, com características bastante peculiares. Parte dos corpos estavam com a cabeça decepada, mãos e pés amarrados por cintas de couro, com fivelas de ferro, todos enterrados de bruços. A datação revelou que os ossos remontavam ao século 13 e 14, período em que a Europa experimentou à “Caça às bruxas”, tão presente no folclore imortalizado pelo cinema.

As características dos sepultamentos – que fugiam aos rituais funerários daquela região – associados ao período e às marcas nos ossos, levou muitos pesquisadores e leigos a acreditar que se tratava do maior cemitério de vampiros já encontrado.

A fama correu o mundo e até hoje Celakovice recebe turistas que querem conhecer e ver a história de homens que foram caçados como vampiros. Mas essa história, na verdade, não passa de estória.

Cerca de 50 anos de pesquisa arqueológica revelaram que a “tumba dos vampiros” não tinha nenhum ser sobrenatural, tampouco pessoas que foram erroneamente consideradas sugadores de sangue. Sobre o sepulcro de Celakovice estão 14 cadáveres que nunca tiveram superpoderes, glamour ou qualquer habilidade sobre humana. Aliás, é justamente o oposto disso.

Tratavam-se de excluídos sociais, gente de poucas posses, integrante de uma classe social relegada. Esses foram, na verdade, os “vampiros de Celakovice”.

No dia 11 de novembro, a cidade Tcheca vai comemorar os 50 anos do descobrimento da tumba dos vampiros. Os ossos, preservados no museu local, compõe o folclore local. Como forma de marca o meio século desse traço cultural, o museu irá realizar uma mostra especial do material arqueológico e da pesquisa envolvendo o cemitério vampírico. A peça mais nova desse acervo foi elaborada por um morador de Sinop, o designe 3D, Cícero Moraes.

Mundialmente conhecido pela reconstrução facial de santos e beatos católicos, Cícero recebeu um convite para remodelar o rosto de um desses “vampiros” através do crânio preservado pelo museu. O pedido veio através de um e-mail, encaminhado por Eva Stuchlíková, da Geo-CZ, uma empresa especializada em digitalização em 3D, que foi contratada pelo museu. “Nesse email ela falava sobre uma mostra que seria feita na cidade de Celakovice, comemerando 50 anos da descoberta dos vampiros daquela localidade. Ela explicou sobre as 11 tumbas, sobre as especulações acerca de rituais anti-vampíricos e sobre como a ciência elucidou esse mistério. Eles pretendiam apresentar a reconstrução facial de um dos vampiros. Gostei do projeto e entrei”, conta Cícero.

As imagens do crânio em 3D, feitas por fotogrametria, foram encaminhadas para Cícero. A avaliação da ancestralidade foi feita pelo especialista em medicina forense, Marcos Paulo Salles Machado, perito do IML do Rio de Janeiro. O crânio pertenceu a um homem, de aproximadamente 35 anos, com ancestralidade europeia.

Com as informações morfológicas, Cícero iniciou o processo de reconstrução forense, utilizando padrões de fisionomia para a construção dos demais tecidos moles, consumidos pelo tempo, como músculos, ligamentos, cartilagens e pele. Utilizando a ciência, o designer conseguiu o impossível: tirar uma foto de um vampiro. “A reconstrução da face não revelou nada em especial em um primeiro momento. O fato curioso é que depois de reconstruído o vampiro deixou algumas pessoas enamoradas. Recebi mensagens de meninas dizendo que não teriam problema em serem mordidas por ele”, conta Cícero, ressaltando o “charme” de uma versão do mendigo gato de Curitiba com 700 anos. Ou seria o efeito Crepúsculo?

O vampirão boa pinta estará exposto no Museu de Celakovice, junto com os ossos daqueles 14 que por anos foram considerados seres sobrenaturais. O rosto revelado pela ciência é de um homem normal, com traços comuns às pessoas que vivem naquela região da República Tcheca. Mais do que uma ferramenta de pesquisa e visualização, o busto reconstruído é um símbolo de que, na imensa maioria das vezes, os monstros são frutos da nossa imaginação – e das demais, são fabricados pelo preconceito.

A mostra será exibida no Museu Městské sob a curadoria de Dana Klírová and Jaroslav Spacek.

Veja o vídeo com o passo a passo da reconstrução.