Negócio familiar
Pastor desvia R$ 4 mi de cartório e paga agiotas, dízimo e carros de luxo
Ele foi condenado pela Justiça a fazer a devolução do valor
Geral | 05 de Junho de 2026 as 16h 21min
Fonte: Folhamax

A juíza substituta da 2ª Vara de Colíder (650 km de Cuiabá), Nathália de Assis Camargo Franco, condenou o pastor de igreja Aldevino Ribeiro Sales à devolução de R$ 4 milhões, além de uma multa no mesmo valor, por atos de improbidade administrativa. Entre 2013 e 2015 ele comandou o Cartório de Registro de Imóveis, Títulos e Documentos do 1º Ofício do município, como oficial interino, e desviou dinheiro para “bancar” igrejas evangélicas - uma delas fundada por ele próprio.
Além da condenação em valores, que ultrapassam R$ 8 milhões, ele também teve os direitos políticos suspensos por 8 anos, está proibido de contratar ou receber incentivos fiscais do Poder Público por igual período, além de sofrer a perda da função pública. A condenação foi proferida na última quinta-feira (4).
Diferente dos autênticos valores cristãos de humildade, honestidade e justiça, Aldevino botava sua “fé” no dinheiro. Os cartórios de registros brasileiros organizam-se como uma espécie de “braço administrativo” do Poder Judiciário, responsável pela fiscalização destes estabelecimentos.
Em Mato Grosso, quando um cartório dá lucro, o dinheiro é revertido ao Fundo de Apoio ao Judiciário (Funajuris) que existe para financiar a manutenção, a modernização tecnológica, a capacitação dos servidores, além de outros fins, do próprio Poder Judiciário.
A denúncia revela, no entanto, que além de receber um salário acima do teto estabelecido para oficial do cartório, o pastor evangélico utilizou os recursos na aquisição de veículos de luxo, “dízimos” de igreja, viagens, mensalidades de faculdades dos filhos, cartões de crédito e outros gastos.
“A variedade das despesas identificadas: - dízimos para igrejas, pagamento de consórcios de veículos de luxo, despesas com viagens (CVC Turismo), honorários advocatícios pessoais, mensalidades de faculdade para filhos, abastecimento de veículos particulares, compra de alimentos em mercados, despesas hospitalares, cartões de crédito pessoais, entre outras - demonstra que o requerido tinha plena consciência de que estava utilizando recursos públicos para fins privados”, revelou a juíza.
Falando nos filhos do pastor, ao menos quatro deles - Tiago Sales, Tales Sales, Tamiris Sales e Talita Sales -, além de sua esposa, Marinez Cosme Sales, também eram empregados no cartório de Colíder que funcionava como uma “empresa de propriedade familiar, misturando indiscriminadamente as finanças da serventia com as finanças pessoais e familiares”.
O processo revela ainda que dinheiro público foi utilizado para bancar igrejas evangélicas, como a “Igreja Nacional Batista Fogo para o Brasil”, fundada pelo próprio Aldevino, que também “sangrou o erário” para pagar agiotas, verdadeiras chagas na sociedade.
“Realizou transferências bancárias e doações a igrejas evangélicas e pastores, a título de dízimo, utilizando recursos da serventia extrajudicial, causando confusão patrimonial, uma vez que exercia concomitantemente a função de pastor e fundador da Igreja Nacional Batista Fogo para o Brasil. Os valores pagos a essas pessoas, identificadas como (agiotas), entre outros, foram custeados com recursos da serventia. A utilização de recursos públicos para pagamento de dívidas pessoais contraídas junto a agiotas é incompatível com qualquer alegação de boa-fé”, asseverou a magistrada.
O pastor evangélico, que está entre a cruz e a espada, ainda pode recorrer.
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