Missão de fé
Documentário Padre Pé de Chinelo, a jornada de Fernando e vidas salvas por solidariedade
Geral | 03 de Junho de 2026 as 21h 44min
Fonte: Por Ricardo Ramos Jornal O Araguaia

Uma viagem de mais de cinco mil quilômetros pelas estradas do Brasil revelou muito mais do que paisagens, cidades e encontros. Revelou uma história de fé traduzida em ação concreta, de um homem simples que escolheu caminhar ao lado dos esquecidos.
O documentário que está sendo produzido sobre o padre Fernando pelo cineasta Ricardo Ramos começou com essa jornada. Um percurso que começou em Confresa, no nordeste de Mato Grosso, e seguiu até Curitiba, passando por cidades, projetos sociais, presídios, igrejas e comunidades onde a presença do padre deixou marcas profundas.
Hoje o padre vive no espaço Irmã Genoveva, em Confresa. A religiosa francesa que viveu por 61 anos entre o povo Tapirapé, ajudando a reconstruir a dignidade de uma etnia quase dizimada, também inspira o trabalho social que continua sendo realizado na região.
Mas a história do padre Fernando começa muito antes.
Um encontro que virou documentário
O encontro entre o jornalista Ricardo Ramos e o padre Fernando aconteceu de forma simples, durante caminhadas no Camilão, em Confresa. Um padre de chinelo, roupas simples e olhar atento às pessoas em situação de rua.
A simplicidade chamou atenção. Aos poucos, surgiram histórias de uma vida dedicada aos “últimos dos últimos”, como o próprio padre costuma dizer.
Foi então que nasceu a ideia do documentário. Para entender essa trajetória, os dois decidiram refazer parte do caminho percorrido pelo padre ao longo da vida. A viagem começou em Confresa e atravessou praticamente todo o Mato Grosso, passando por Ribeirão Cascalheira e Nova Xavantina, onde o trabalho social do padre também deixou marcas.
A visita ao presídio
Um dos momentos mais marcantes da viagem aconteceu no presídio feminino de Nova Xavantina.
Antes da visita, o padre passou em um mercado e comprou doces para levar às detentas. Gestos simples, mas que fazem diferença em um ambiente marcado por dor e abandono.
A maioria das mulheres presas cumpre pena por envolvimento com o tráfico. A maioria está longe dos filhos e da família.
Durante a visita, o padre abraça, conversa e escuta. Muitas delas não recebem visitas há anos.
Além disso, ele acaba desempenhando também um papel curioso: o de mensageiro. Leva cartas das famílias e também leva cartas escritas pelas presas para seus parentes.
Pequenos gestos que devolvem um pouco de humanidade a quem muitas vezes é esquecido pela sociedade.
Uma rede de solidariedade
A viagem seguiu rumo ao sul do país, atravessando Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul, muitas vezes sob chuva intensa.
Em Aparecida do Taboado, os viajantes encontraram acolhida na casa paroquial do padre José Maria, que os recebeu com hospitalidade, oferecendo pouso e alimento.
A experiência revelou algo comum entre religiosos: uma rede silenciosa de solidariedade que conecta comunidades e pessoas ao longo do país.
A viagem finalmente chegou a Curitiba, onde parte importante da história do padre Fernando foi construída.
A Chácara Quatro Pinheiros
Foi em Curitiba que o padre começou um dos trabalhos sociais mais marcantes de sua trajetória: a Chácara Quatro Pinheiros.
Antes disso, ele iniciou sua formação religiosa na ordem dos carmelitas. Mas percebeu que não se sentia confortável em um ambiente religioso distante da realidade das ruas.
Em um episódio marcante, pessoas em situação de rua foram impedidas de entrar em um local religioso. Aquilo foi decisivo.
O padre decidiu sair e passar a viver entre os moradores de rua.
Nas ruas ele encontrou uma realidade dura: crianças abandonadas, vítimas de violência doméstica, abuso, fome e frio.
Foi então que começou a mobilização.
Com ajuda de voluntários e de irmãs religiosas, conseguiu um terreno onde nasceu a Chácara Quatro Pinheiros.
No início era apenas um barracão simples com cozinha. Mas o projeto cresceu.
Voluntários começaram a chegar: psicólogos, pedagogos, professores, cozinheiras e pessoas da comunidade.
Com o tempo, o projeto passou a atender até 120 crianças simultaneamente.
Durante cerca de 20 anos de funcionamento, aproximadamente 1.500 crianças e adolescentes passaram pelo projeto.
Histórias que mudaram de rumo
Durante a produção do documentário, cerca de vinte homens que passaram pela chácara foram entrevistados.
Hoje muitos têm entre 30 e 35 anos.
Entre eles há advogado, psicólogo, enfermeiro e outros profissionais que reconstruíram suas vidas e hoje ajudam crianças de comunidades pobres.
Durante uma roda de conversa, vários relataram histórias duras da infância: violência doméstica, abuso, alcoolismo na família e abandono.
Mas também falaram sobre a oportunidade que receberam.
Para muitos, a chácara representou o primeiro lugar onde foram tratados com respeito.
O reconhecimento
O impacto do trabalho do padre também chegou à universidade.
Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná desenvolveram estudos acadêmicos baseados na experiência da Chácara Quatro Pinheiros. Parte dessa história aparece no livro Cenários de Pesquisas em Educação, organizado por professoras da instituição.
O projeto também inspirou outras iniciativas sociais.
Um dos antigos meninos atendidos pela chácara criou um novo projeto social que hoje atende cerca de 70 crianças.
Uma missa cheia de simbolismo
Um dos momentos mais emocionantes da viagem aconteceu em uma missa celebrada pelo padre no espaço Profeta Elias, onde tudo começou.
A celebração reuniu antigos colaboradores, moradores da comunidade e pessoas que fizeram parte da história da chácara.
O altar foi improvisado sobre um carrinho de catador de papel, símbolo da luta das pessoas simples que ajudaram a construir aquela história.
O pequeno espaço ficou lotado.
Música, teatro e depoimentos lembraram o passado e celebraram as vidas transformadas.
O abraço que muda vidas
No retorno da viagem, entre Curitiba e São Paulo, o padre continuou fazendo aquilo que sempre fez: parando na estrada para conversar com andarilhos.
Com alimentos preparados por dona Terezinha, uma amiga que hospedou os viajantes em Curitiba, foram distribuídas refeições e água a pessoas em situação de rua.
Mais do que comida, cada pessoa recebeu um abraço.
Alguns choraram.
Muitos disseram que fazia anos que não recebiam um gesto de carinho.
Um homem que inspira
Depois de semanas de entrevistas e visitas, o material reunido para o documentário ultrapassa 500 gigabytes de imagens e depoimentos.
Mas talvez uma frase resuma melhor toda essa história.
Durante as entrevistas, um dos homens que foi acolhido quando criança disse algo marcante.
Hoje ele afirma não acreditar em Deus.
Mesmo assim, fez uma declaração que emocionou a todos:
“Eu não acredito em Deus, mas a pessoa que eu conheci na vida que mais se parece com Jesus Cristo é o padre Fernando.”
Hoje, já ordenado sacerdote aos 62 anos, o padre continua seu trabalho em Confresa, no espaço da Irmã Genoveva.
Ali, entre indígenas, moradores de rua e pessoas esquecidas pela sociedade, ele segue fazendo o que sempre fez: caminhar ao lado de quem mais precisa.
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