Estudo
Volume de água desperdiçado no Brasil seria suficiente para abastecer 77 milhões de pessoas
Estudo do Instituto Trata Brasil aponta que, por dia, o país perde o equivalente a 16,2 milhões de caixas d’água
Economia | 02 de Junho de 2026 as 12h 42min
Fonte: Noticias R7

O Brasil desperdiça mais de um terço da água tratada (39,53%) antes mesmo que ela chegue às torneiras das famílias, volume que seria suficiente para abastecer cerca de 77 milhões de pessoas.
Os dados são do “Estudo de Perdas de Água 2026: Desafios na Eficiência do Saneamento Básico no Brasil”, realizado pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados.
Ainda de acordo com a pesquisa, o desperdício diário equivale ao conteúdo de 16,2 milhões de caixas d’água. Caso o Brasil consiga reduzir as perdas para 25% — meta estipulada pelo governo federal —, o volume economizado seria capaz de abastecer 17,2 milhões de brasileiros que vivem em comunidades vulneráveis por dois anos, além de gerar ganhos brutos de R$ 47,2 bilhões até 2033.
Geograficamente, as regiões Norte e Nordeste registram os maiores níveis de desperdício. Estados como Alagoas (66,90%), Roraima (65,97%), Pará (57,33%), Maranhão (56,68%), Acre (56,48%) e Sergipe (55,10%) apresentam índices de perdas superiores a 55% do volume distribuído, significativamente acima da média nacional.
Por outro lado, estados das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, como Goiás (27,61%), Mato Grosso do Sul (30,60%), Distrito Federal (31,55%), São Paulo (32,15%) e Paraná (33,11%), possuem indicadores inferiores a 35%.
Apesar disso, a eficiência geral ainda é um desafio: entre os 100 municípios mais populosos do país, apenas 12 cumprem as metas de excelência de perdas na distribuição e por ligação. Além disso, só quatro das 27 capitais atingiram o teto de perdas recomendado: Goiânia, São Paulo, Campo Grande e Teresina.

Para onde vai a água?
A presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, explica que 60% do desperdício no país é causado por perdas reais, ou seja, vazamentos físicos nas tubulações, que vão desde os visíveis no asfalto até os ocultos, embaixo do pavimento.
“Essa perda física representa aproximadamente 4.800 piscinas olímpicas de água tratada desperdiçadas por dia”, frisa a executiva.
Os outros 40% do volume que escorre pelo ralo são fruto de perdas comerciais (ou aparentes). “São os usos para fins sociais, furtos, erros de medição ou consumos feitos fora do sistema de distribuição, de maneira irregular”, detalha.
A engenheira civil acende um alerta, principalmente, para os impactos dos furtos de água, os chamados “gatos”. Segundo ela, as consequências não são apenas ambientais e econômicas — com o consequente aumento das tarifas —, mas também sociais, podendo causar problemas de saúde pública.
“É necessário realizar campanhas de conscientização para que a população entenda que a água furtada frequentemente sofre contaminação cruzada e fica fora dos padrões de potabilidade”, afirma Luana. “Por isso, é preciso se envolver com a comunidade para ações educativas e para entender melhor a realidade local”, completa.
De acordo com a especialista, a problemática da perda de água no país é histórica e escancara o baixo investimento em programas voltados à eficiência energética e operacional.
“Historicamente, investiu-se muito na expansão do acesso à água tratada e pouco na redução de perdas. Isso acontece em um país com grande volume de recursos hídricos, mas que já enfrenta problemas graves de secas, ondas de calor e mudanças climáticas no geral”, alerta a presidente do Instituto Trata Brasil.
Diante dessa realidade preocupante, Luana Pretto aponta a necessidade de mudar o patamar do debate: “A redução de perdas de água é um tema que precisa ser encarado, urgentemente, como uma medida de adaptação às mudanças climáticas”.
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