Dependência econômica
Por que é tão difícil abandonar o petróleo até mesmo no Brasil?
Economia | 22 de Abril de 2026 as 10h 08min
Fonte: AFP

Quando, em 2023, a comunidade internacional se comprometeu a iniciar uma transição para abandonar os combustíveis fósseis no intuito de frear as mudanças climáticas, alguns celebraram isso como o começo do fim do petróleo.
Três anos depois, a guerra no Oriente Médio evidencia que a dependência mundial do “ouro negro” não mudou, apesar de suas consequências irem muito além do impacto ambiental.
A economia e a segurança energética globais estão em risco. Isso faz com que o conflito seja usado como mais uma razão para substituir definitivamente o principal responsável pelas emissões de CO₂ por energias renováveis, 167 anos depois da extração do primeiro barril comercial na Pensilvânia, nos Estados Unidos.
No entanto, apesar de alguns apelos, a tendência global indica que a promessa da COP28 está longe de ser cumprida.
A política do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é um exemplo disso: depois de cunhar o slogan “drill, baby, drill” (perfura, querido, perfura), ele interveio em dois países ricos em reservas de petróleo: Venezuela e Irã.
Por que é tão difícil deixar para trás o petróleo? A seguir, algumas pistas.
É a economia
Se os mercados financeiros respiram conforme as oscilações do preço do barril, é porque seus agentes estão profundamente ligados aos ativos associados aos hidrocarbonetos.
A dependência econômica é total em países como Arábia Saudita, Kuwait e Iraque, mas não apenas neles.
No caso do Brasil, por exemplo, retirar a Petrobras da balança comercial desmontaria a economia, já que o petróleo é um dos principais produtos de exportação, acrescenta Angelo.
Outros países, como a Colômbia, são tão dependentes dessas receitas que seu presidente, Gustavo Petro, pede alívio da dívida soberana para tornar viável sua promessa de não conceder novos contratos de exploração de petróleo.
Vontade política
Potências exportadoras de petróleo como os Estados Unidos, Canadá e Austrália têm, por outro lado, meios para assumir a transição energética, afirma Bill Hare, diretor do instituto Climate Analytics.
“É uma questão de vontade política”, acrescenta à AFP.
Mas com o retorno de Trump ao poder, junto ao avanço global da extrema direita, os interesses econômicos voltam a ser priorizados em detrimento da luta contra o aquecimento global — quando o fenômeno não é diretamente negado.
“Há toda uma visão no Ocidente, liderada pelos Estados Unidos, de voltar a um modelo que já existiu”, de curto prazo, sustenta Leonardo Stanley, pesquisador associado do Centro de Estudos de Estado e Sociedade de Buenos Aires.
Presentes nas conferências anuais da ONU sobre o clima, as petroleiras — da americana ExxonMobil à saudita Aramco — defendem seus interesses nos bastidores, às vezes por meio de grandes consultorias como a McKinsey, como mostrou uma investigação da AFP na COP28.
“O setor de óleo e gás é o lobby mais poderoso da Terra”, afirm.a Angelo. Há 30 anos ele “joga para adiar mudanças”, acrescenta.
Quem paga a conta?
Para abandonar o petróleo, é necessário apoio financeiro aos países produtores dependentes dessas receitas e também aos mais pobres, para acompanhar a transição.
“Tem que haver alguma disposição das grandes e médias potências econômicas de criar um sistema internacional que facilite isso”, o que até agora não ocorreu, afirma Bill Hare.
Sinais positivos
Apesar de tudo, há avanços.
As energias renováveis representaram um recorde de quase 50% da capacidade elétrica mundial em 2025, segundo a Irena, entidade intergovernamental que promove a transição energética.
A China, maior emissora mundial de gases de efeito estufa e, ao mesmo tempo, líder na produção de energias renováveis, ampliou de forma excepcional suas capacidades eólicas e solares no ano passado.
No Paquistão, a energia solar, que era marginal em 2020, tornou-se uma das principais fontes de eletricidade.
Em várias regiões da Austrália e dos Estados Unidos, o avanço das energias renováveis reduziu a conta de luz, segundo Hare.
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