Levantamento
Mulheres ganham até 40% menos que homens em plataformas digitais
Novo estudo da ONU Mulheres e OIT mostra que as plataformas digitais estão replicando, e agravando as desigualdades de gênero e de remuneração
Economia | 24 de Abril de 2026 as 14h 10min
Fonte: Isto é

Segundo o estudo inédito “Mulheres na economia de plataformas: desafios e oportunidades na Ibero-América”, apesar da flexibilidade, as mulheres que trabalham em plataformas digitais recebem, em média, 40% menos por hora do que os homens. Além disso, elas podem ter rendimentos semanais até 67% inferiores.
A promessa de ser sua própria chefe, fazer seus horários e conciliar a carreira com a vida pessoal é o que faz cerca de 3,5 milhões de mulheres na Ibero-América, o equivalente a 2,5% da força de trabalho feminina, trabalhar nesse formato.
O levantamento, que analisou 22 países da região (incluindo o Brasil), divide esse mercado em dois grandes blocos. De um lado, as plataformas baseadas na localização, como transporte e entregas, onde a predominância ainda é masculina.
Neste setor, o Brasil até apresenta a maior participação relativa feminina da região, mas em números absolutos, apenas cerca de 220 mil mulheres atuam nesse segmento. Do outro lado, os serviços domésticos, de cuidado e o trabalho online (freelancers e microtarefas) concentram a maioria das mulheres, somando cerca de 2,8 milhões na região.
O ingresso e a permanência nesses espaços, no entanto, ainda esbarram em barreiras estruturais. Muitas enfrentam dificuldade de acesso a dispositivos e internet de qualidade, além da falta de financiamento para adquirir ferramentas essenciais de trabalho, como veículos.
O mito da qualificação e o peso do cuidado
De acordo com o estudo, a desigualdade salarial não se explica pela falta de formação. Mesmo quando possuem níveis educacionais iguais ou superiores aos dos homens, as mulheres continuam ganhando menos.
A segregação ocupacional é uma das explicações, visto que elas estão concentradas em funções menos valorizadas, como tarefas administrativas e atendimento, enquanto eles dominam áreas tecnológicas e mais rentáveis.
Cerca de 25% do tempo delas também é gasto em atividades sem pagamento, como a espera por chamadas ou a busca por novas tarefas. Enquanto os homens trabalham cerca de 25 horas semanais nas plataformas, as mulheres conseguem dedicar apenas 16 horas por conta das responsabilidades domésticas.
Além disso, as mães, especialmente com filhos pequenos, têm menor inserção e recebem menos, enquanto homens com filhos tendem a ganhar mais, evidenciando uma penalização da maternidade.
Quando o algoritmo pune
Embora os sistemas não apliquem punições formais, eles operam por meio de incentivos que desfavorecem quem não tem disponibilidade total. Na prática, o algoritmo reduz a visibilidade de quem recusa ou demora a aceitar tarefas, penaliza rankings e restringe a escolha de horários, restrições que afetam mais as mulheres.
Nos serviços de transporte e entrega, o estudo também aponta maiores recorrências de assédio e violência, agravados por uma sensação de insegurança e ausência de mecanismos eficazes de proteção.
Classificadas como autônomas, essas mulheres vivem em uma invisibilidade legal, com acesso limitado a direitos básicos como licença-maternidade, seguro-doença e previdência social.
O caminho para a mudança
Apresentado em Madri, na Casa de América, o documento salienta a urgência na criação de políticas públicas. Como ressaltou a diretora regional da ONU Mulheres, Bibiana Aído, superar essas disparidades exige uma ação conjunta entre governos, setor privado e instituições internacionais.
Para isso, o relatório propõe medidas como:
- Regulação com perspectiva de gênero, assegurando a igualdade salarial;
- Transparência algorítmica, permitindo maior fiscalização para evitar que a inteligência artificial automatize e reproduza preconceitos;
- Redistribuição das tarefas de cuidado através de políticas públicas eficientes;
- Criação de canais de denúncia e protocolos para o combate ao assédio;
- Inclusão digital e ampliação da proteção social, garantindo acesso à tecnologia, capacitação e direitos trabalhistas para todas.
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