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'Vulcão' subterrâneo

Geólogo: cidade de MT guarda diamantes raros e atrai a ciência

Daniel Fernandes revela que pedras encontradas em Juína se formaram a 400 km de profundidade

Economia | 31 de Agosto de 2026 as 09h 03min
Fonte: Mídia news

Foto: Reprodução

Conhecida há décadas pela exploração de diamantes, Juína (a 730 km de Cuiabá) guarda no subsolo pistas de uma região da Terra que o homem jamais conseguiu alcançar diretamente. Parte das pedras encontradas no município se formou a centenas de quilômetros de profundidade, no manto terrestre, e chegou à superfície carregada pelo magma de antigas estruturas vulcânicas conhecidas como kimberlitos.

Em entrevista ao MidiaNews, o gemólogo e geólogo Daniel Fernandes, formado pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e que acompanha pesquisas e atividades na região diamantífera de Juína, explicou que essa característica torna o município um dos pontos mais importantes do planeta para o estudo dos chamados diamantes superprofundos.

“Lá em Juína foi comprovado, justamente através desses estudos, que ele tem um vulcão que passa de 400 quilômetros de profundidade. [...] Não tem vulcão no planeta que tenha essa característica de ser da região tão profunda assim como são os de lá. Então, por isso, ele se torna o vulcão mais interessante do mundo para estudos científicos”, afirmou.

Cientificamente, entretanto, não se trata de um vulcão com uma cratera ou um duto aberto que se estenda por centenas de quilômetros. Os kimberlitos são estruturas formadas pela rápida ascensão de magma originado no interior da Terra e funcionaram como uma espécie de “elevador”, transportando para perto da superfície rochas, minerais e diamantes formados em grandes profundidades.

Juína já era reconhecida como um importante polo produtor de diamantes, principalmente de pedras destinadas à indústria. O interesse científico pela região, porém, aumentou com a identificação de diamantes cuja composição indica origem muito abaixo da profundidade em que a maioria dessas gemas se forma.

Enquanto grande parte dos diamantes conhecidos se forma no manto litosférico, geralmente entre aproximadamente 140 e 200 quilômetros abaixo da superfície, exemplares de Juína apresentam minerais associados a regiões que ultrapassam os 400 quilômetros. São os chamados diamantes superprofundos.

Estudos realizados desde a década de 1990 já apontavam que pedras encontradas na região de Juína poderiam ter vindo da zona de transição e até do manto inferior. Pesquisas científicas posteriores reforçaram essa característica excepcional do campo diamantífero mato-grossense.

Uma nova descoberta deu ainda mais importância à região. Pesquisa liderada pela geóloga Carolina Camarda, da Universidade de Brasília (UnB), com participação de pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), analisou um diamante coletado no Chapadão, em Juína, utilizando equipamentos do Sirius, fonte de luz síncrotron instalada no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), em Campinas (SP).

O estudo, publicado em maio deste ano na revista científica Scientific Reports, identificou mais de 100 inclusões dentro da pedra. Uma delas chamou especialmente a atenção dos pesquisadores: um oxihidróxido de ferro formado por uma combinação de goethita, hematita e magnetita.

A presença de ferropericlásio entre as inclusões encontradas no diamante é uma das evidências de sua origem superprofunda. Segundo o estudo, pedras com essas características são associadas a pressões existentes em profundidades que podem variar de cerca de 300 a 1.000 quilômetros no interior do planeta.

Diamante “feio” e valioso para a ciência

Yasmin Silva/MidiaNews

Diamante trazido ao estúdio por Daniel Fernandes

Diamante com inclusões de minerais lapidado como gema

Os diamantes são classificados de acordo com características como origem, coloração, composição e estrutura. Muitos dos encontrados em Juína apresentam aspecto bastante diferente das pedras transparentes e brilhantes associadas às joias.

Isso acontece justamente por causa das inclusões — minúsculos fragmentos de outros minerais aprisionados no interior do diamante durante sua formação.

“A única diferença é a forma dele. Ele é um diamante que é feio, é todo enrugado, todo mexido. Mas, assim, cientificamente começaram a ver que tem um monte de inclusão, tem um monte de impureza”, explicou Fernandes.

Para o mercado de joias, essas “impurezas” normalmente reduzem o valor da pedra. Para os cientistas, ocorre exatamente o contrário: elas podem ser a parte mais preciosa do diamante.

Fernandes compara as inclusões a pequenos “grãos de areia” preservados dentro da gema. Como ficaram isoladas durante milhões de anos, elas guardam informações sobre as condições de pressão, temperatura e composição química existentes no interior da Terra no momento da formação da pedra.

“Então, o que é mais importante para a ciência é a inclusão que está lá dentro. Agora, para joias, não. É a transparência, a pureza. Não pode ter essas inclusões. E quanto mais inclusão, menor o valor da gema, da joia, que vai sair depois”, afirmou.

Esses materiais ficam presos no diamante durante os complexos processos ocorridos no interior da Terra. Posteriormente, violentas erupções de magma kimberlítico transportam as pedras e fragmentos de rochas do manto em direção à superfície. Ao longo dessa história geológica, minerais podem permanecer preservados dentro dos diamantes.