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Artigo

Por que o Brasil precisa pensar fertilizantes com visão global

23 de Março de 2026 as 08h 48min
Fonte: Prof. Dr. Lucas Oliveira de Sousa

A missão técnica que realizamos na China, após a etapa na Austrália, no âmbito da cooperação entre a UFMT, a Fundação Uniselva e a Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Mato Grosso, com apoio da Invest MT, deixou uma constatação clara: o debate sobre fertilizantes já não é apenas técnico ou comercial, mas sim geopolítico e, portanto, estratégico.

Ao longo da agenda, passamos pela South China Agricultural University (SCAU), em Guangzhou, participamos da CAC 2026, em Xangai, e visitamos unidades industriais em Yichang. Em todos os ambientes, uma percepção se consolidou: a China opera com visão de longo prazo, combinando planejamento estatal e uso estratégico do mercado.

Diante das tensões globais, especialmente com os desdobramentos da guerra envolvendo o Irã (e mais especificamente o Estreito de Ormuz), o país reforçou restrições às exportações para proteger seu abastecimento interno. Em cenários de incerteza, a prioridade chinesa é clara: proteger o mercado nacional.

Esse movimento precisa ser compreendido pelo Brasil. Somos altamente dependentes da importação de fertilizantes, e Mato Grosso, como principal potência agrícola do país, está no centro dessa vulnerabilidade. Em um ambiente instável, qualquer ruptura logística ou aumento de preços impacta diretamente nossa produção.

Durante a missão, uma profissional da indústria chinesa sintetizou esse desafio: “O Brasil precisará encontrar uma solução para a obtenção de fertilizantes com as matérias-primas disponíveis, mesmo que, atualmente, não sejam eficientes.”

A mensagem é direta: limitações não justificam (para sempre) a dependência. Em um setor estratégico, é preciso transformá-las em uma agenda de inovação. Para isso, a ciência aplicada é central nesse processo.

Para empresas e governos, a questão deixa de ser apenas eficiência e passa a incluir resiliência. Quais são nossas dependências críticas? E o que estamos fazendo hoje para reduzi-las?

Por isso, o Brasil, e especialmente Mato Grosso, precisam avançar com visão global, fortalecendo parcerias, atraindo investimentos e desenvolvendo capacidades científicas, tecnológicas e comerciais que reduzam a dependência externa.

Se quisermos sustentar nossa liderança no agro, não basta produzir mais. É preciso garantir as condições para continuar produzindo, mesmo em cenários adversos.

No agro do século XXI, competitividade não será apenas produzir mais, mas depender menos.

 

*Prof. Dr. Lucas Oliveira de Sousa, PhD em Ciências Agrícolas (Universität Hohenheim, Alemanha), professor da UFMT, especialista em agronegócio e internacionalização.

Prof. Dr. Lucas Oliveira de Sousa

Opinião

*Prof. Dr. Lucas Oliveira de Sousa é PhD em Ciências Agrícolas pela Universität Hohenheim, Mestre em Economia Aplicada pela UFV, Bacharel em Gestão do Agronegócio pela UFV, Professor da Faculdade de Agronomia e Zootecnia da UFMT.