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A resistência da economia
01 de Junho de 2026 as 09h 56min
Os dados do desempenho do PIB no primeiro trimestre de 2026 divulgados pelo IBGE na última sexta-feira (29) mostram o robusto crescimento da economia brasileira.
Mesmo em ambiente desfavorável, com aumento das incertezas econômicas no cenário internacional, motivadas pela insana guerra dos Estados Unidos contra o Irã e pela política contracionista praticada pelo Banco Central, que mantém juros muito elevados para manter a inflação próxima à meta.
De janeiro a março deste ano, a atividade econômica cresceu 1,1% e 1,8% nos últimos doze meses, completando 21 trimestres seguidos de desempenho positivo.
Desta vez, o avanço não foi nenhuma surpresa. Na semana anterior, o jornal Valor Econômico publicou pesquisa com 71 instituições indicando que o desempenho do primeiro trimestre ficaria em 1,1% e o crescimento anual nos mesmos 1,8% confirmados pelas Contas Nacionais Trimestrais do IBGE.
Pelo lado da demanda, o consumo final das famílias foi o motor do crescimento, puxado pela expansão da renda disponível, aumento da massa salarial (baixo desemprego) e pelo aumento da oferta de crédito, que alavanca compras a prazo.
A parte crítica do desempenho do primeiro trimestre é que o crescimento está muito sustentado no consumo das famílias, estímulo ao crédito e gastos do governo (federal, estaduais e municipais)
Segundo pesquisadores do IBGE, os dados do mês de março começaram a sinalizar redução da atividade em razão dos juros elevados e das incertezas internacionais.
Por outro lado, o mercado de trabalho segue aquecido e a administração federal impulsiona o consumo com medidas como aumento real do salário-mínimo e o início da vigência da isenção do Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF) para quem ganha R$ 5 mil por mês a partir de janeiro.
Chama a atenção o aumento do acesso ao crédito em ambiente hostil de taxas de juros muito altas e elevado nível de endividamento das famílias.
Ainda na ótica da demanda, o aumento da formação bruta de capital fixo (FBCF), como o investimento é chamado nas contas do PIB, cresceu 3,5%, contribuindo para a boa performance do primeiro trimestre. Ainda assim, a participação do investimento na formação do PIB (taxa de investimento) ficou em 16,5%, abaixo do patamar de 17,6% alcançado no primeiro trimestre de 2025.
Pelo lado da produção, os destaques foram o bom desempenho da agropecuária, com a grande safra de soja, evolução da pecuária e da indústria extrativista, ancorada no aumento da produção de petróleo e gás. A indústria da construção também teve bom desempenho.
O PIB industrial só não colheu aumento mais expressivo porque a indústria de transformação (bens acabados, prontos para o consumo) ficou praticamente estagnada no primeiro trimestre.
O setor de serviços, que responde por 70% do PIB, teve crescimento baixo (0,5%), com melhor desempenho nos setores de informação/comunicação, atividades imobiliárias e comércio. Houve retração nos serviços de correios, transportes, armazenagem e atividades financeiras.
Não resta dúvidas que o desempenho da economia no primeiro trimestre foi bom, na comparação anual e trimestral. É o sexto maior crescimento anual e terceiro em crescimento trimestral entre os 45 países que já divulgaram dados do PIB no primeiro trimestre, inclusos as economias da OCDE e G-20, que são as maiores e mais desenvolvidas.
A parte crítica do desempenho do primeiro trimestre é que o crescimento está muito sustentado no consumo das famílias, estímulo ao crédito e gastos do governo (federal, estaduais e municipais), com baixa evolução do investimento e da poupança, componentes que garantem a sustentabilidade da economia em médio e longo prazos.
As evidências sugerem que vai se repetir o padrão de desempenho do PIB dos últimos anos. Com protagonismo da agropecuária e consumo das famílias, o primeiro trimestre tem avanço forte, seguido de alta moderada nos trimestres seguintes, o que pode garantir crescimento pouco acima de 2% ao final de 2026.
São pertinentes as críticas de que o atual perfil da evolução do PIB, baseado no consumo das famílias e oferta de crédito, não permite ao país explorar todo seu potencial de crescimento. Todavia, o histórico dos últimos anos é positivo.
Confirmadas as previsões de crescimento acima de 2% este ano, no período recente de 2022 a 2026 o crescimento acumulado do PIB será de 11,4%, o que assegura a posição do Brasil entre as dez maiores economias do mundo.
Nesse período, a economia brasileira mostrou-se bem resistente a choques. Enfrentamos a pandemia, guerra Rússia-Ucrânia, tarifaço de Trump e agora a guerra do Oriente Médio, que elevou os preços de petróleo, fertilizantes e fretamentos.
Vivaldo Lopes
Artigo
*Vivaldo Lopes, economista formado pela UFMT, onde lecionou na Faculdade de Economia. É pós-graduado em MBA- Gestão Financeira Empresarial pela FIA/USP . E-mail: vivaldo@uol.com