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Ciência brasileira revelará o rosto do santo dos namorados

Após 1,7 mil anos, a face de São Valentim será digitalmente reconstruída a partir do seu crânio

Seu Valentim | 19 de Outubro de 2016 as 17h 50min
Fonte: Jamerson Miléski

José Lira, fazendo as fotos do crânio de São Valentim |

O mártir da igreja católica que foi condenado e morto por unir casais no sagrado matrimônio terá o seu rosto apresentado para o mundo através da intervenção da ciência. São Valentim, que na maior parte do planeta é venerado como santo dos casais apaixonados, terá sua face digitalmente reconstruída a partir do seu crânio.

Na Europa e nos Estados Unidos, casais comemoram o Dia dos Namorados em 14 de fevereiro, aniversário da morte de São Valentim. No Brasil, o santo não é tão popular e a data dos namorados é comemorada na véspera do dia de Santo Antônio, em 12 de junho. Ironicamente, será um grupo de brasileiros que irão apresentar o rosto de São Valentim para os apaixonados do mundo inteiro. Até o próximo Dia de São Valentim será possível “tocar” no rosto do santo.

O trabalho está a cargo de um time que se tornou especialista em materializar santos. O designer 3D de Sinop, Cícero Moraes, fará a reconstrução facial de São Valentim. Moraes já atuou na reconstrução da face de Santo Antônio, Santa Maria Madalena e outros 8 santos e beatos católicos de vários locais do mundo. O método científico empregado por Moraes cruza as imagens do crânio com as informações sobre a ancestralidade do indivíduo (identificadas nos ossos), produzindo a partir de um padrão os demais tecidos que foram consumidos pelo tempo, como pele, músculos, cartilagens e olhos. O resultado é uma fotografia aproximada, em 3 dimensões, de como era o rosto referente aquele crânio, em vida.

As imagens do crânio foram produzidas por José Luís Lira, pesquisador e escritor cearense, membro da Abrhagi (Academia Brasileira de Hagiologia). Lira já trabalhou com Cícero Moraes na reconstrução dos rostos de Maria Madalena, Madre Paulina e São Vicente de Paulo. O pesquisador foi para Roma na segunda quinzena de outubro para acompanhar a canonização do Beato José Sánchez del Río – uma figura religiosa do México à qual Lira tem bastante apreço. Com uma agenda relativamente livre, o pesquisador foi até a Igreja de Santa Maria de Cosmedin, onde está localizada a relíquia que guarda parte dos restos mortais de São Valentim. “Eu previa em ir à Veneza, no dia 13 de outubro, mas o dia amanheceu chuvoso, tive um probleminha de dores na perna esquerda, então decidi ficar em Roma. Fui à Praça São Pedro e lá entre aquelas senhoras que vendem santinhos, uma me passou uma estampa de São Valentim. Eu já tinha em mente ir à Basílica. Mais à frente vi a foto da Boca da Verdade, que fica antes da Basílica. Pensei: será um recado?”, conta.

Lira acabou indo até a basílica, onde encontrou o padre Mtanious Hadad, reitor da igreja e explicou o desejo de fazer a reconstrução facial do santo. O padre autorizou o procedimento. No dia seguinte Lira voltou à basílica para fazer as fotos. Com as portas fechadas, Lira teve a requisitada relíquia a sua inteira disposição por 40 minutos. “A relíquia de São Valentim é considerada relíquia insigne, ou seja, de especial valor para a Igreja. Está naquela Basílica há séculos. É venerada por todos e os exames periciais já apontaram que é de um homem. Sem dúvida, por meio dela, veremos a face deste santo dos primeiros séculos que é venerado como o protetor dos casais que desejam casar-se”, comentou Lira.

Foram mais de 250 fotos enviadas de Roma para Sinop. Cícero Moraes organizou as imagens em um software que faz o dimensionamento espacial, resultando em uma imagem em 3 dimensões do crânio.

O 3D e algumas fotos foram encaminhadas para o perito forense do IML (Instituto Médico Legal) do Rio de Janeiro, Marcos Paulo Salles Machado. A avaliação do perito é necessária para gerar as informações sobre a ancestralidade, sexo e idade do indivíduo a qual pertence o crânio. “A reconstrução de uma parte reduzida do crânio, que pode ser capturada pela fotogrametria, dificulta uma análise completa. Mas foi possível perceber que se trata do crânio de um homem com mais de 40 anos. Quanto ao sexo, a observação de uma glabela projetada, fronte inclinada, arcos superciliares proeminentes, bordos orbitaríeis rombos e processo mastoide volumoso, indicam ser masculino. O desenvolvimento dentário (erupção, perdas e desgastes por uso) foi fundamental para a estimativa da idade”, explicou o perito forense.

Uma nova coleta de dados antropológicos será feita por Cícero para balizar a reconstrução da face. Trata-se de um crânio com mais de 1,7 mil anos que, conforme relata a história, foi separado do corpo com um machado. “A técnica que será aplicada é similar a utilizada nas demais reconstruções”, ressaltou Cícero.

Quando a reconstrução estiver pronta, a imagem em 3 dimensões do rosto será encaminhada para o Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer em Campinas-SP. É o mesmo local onde foi impresso o famoso busto de Santo Antônio, reconstruído por Cícero e apresentado em Pádua, na Itália. O rosto em 3D de São Valentim será impresso pelo Centro, materializando a face do santo.

Feito isso, a peça será remetida para Sinop, mais especificamente para as mãos de Mari Bueno. A artista plástica irá pintar o busto de São Valentim, da mesma forma que fez com Santo Antônio, dando um resultado mais expressivo para a obra.

Ao final do processo o rosto em 3D do santo será levado para Roma e entregue para o reitor da Basílica que guarda a relíquia de São Valentim. Lá estarão, lado a lado, o ossos que restaram de um santo e a concepção de como era aquele homem em vida.

 

Morto por unir casais

São Valentim tem uma das histórias mais “românticas” entre os santos que compõem a cultura da fé católica – sendo o ícone perfeito para os casais apaixonados. Narra a história que nos idos do ano 200 d.C, o imperador romano Cláudio II, durante seu governo, proibiu a realização de casamentos em seu reino. O objetivo era formar um grande e poderoso exército. O imperador acreditava que os jovens, que não tivessem família ou esposa, ingressariam com mais facilidade no exército.

Mas um bispo romano achou que o amor não era da conta do imperador. Valentim continuou a celebrar casamentos, mesmo com a proibição. As cerimonias eram realizadas em segredo, até que o bispo foi descoberto. Valentim foi preso e condenado à morte. Enquanto estava preso, muitos jovens jogavam flores e bilhetes dizendo que ainda acreditavam no amor. Entre as pessoas que jogaram mensagens ao bispo estava uma jovem cega, Artérias, filha do carcereiro, a qual conseguiu a permissão do pai para visitar Valentim. Os dois acabaram se apaixonando e, milagrosamente, a jovem recuperou a visão. O bispo chegou a escrever uma carta de amor para a jovem com a seguinte assinatura: “de seu Valentim”. A expressão é utilizada em cartões dos dias dos namorados no mundo inteiro.

Valentim foi decapitado em 14 de fevereiro de 270. Virou mártir da igreja e símbolo dos namorados, que comemoram seu romance no dia da morte do santo. Desde 1969 a Igreja Católica não celebra mais oficialmente a data do santo, em função da precariedade de comprovações históricas. Para os casais, as honras a São Valentim continuam, não necessariamente ao santo, mas à mensagem que essa figura religiosa morreu defendendo. 

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